Capítulo IX - Clemilda: a nossa Francisco, o Homem

Ver de perto pessoas tocando instrumentos musicais e cantando, à semelhança dos artistas que gravavam discos, era um acontecimento que ainda ecoava o frescor da novidade. Foi quando a fumaça da música trouxe outra nuance: a presença sonora de uma artista sergipana que falava e cantava no rádio.
Embora me dissessem que ela era sergipana — assim como eu, o alfaiate Regi, o cantor Tontonho e a organista Gerusa, que regia o conjunto Embalo D, em Dores —, eu não a via em nenhum dos lugares por onde andava, nem nunca tinha visto um retrato dela impresso.
Muito tempo depois fique sabendo que a nossa ancestral e metamórfica estrela do forró nasceu em São José da Laje, Alagoas. Mas, sem dúvida, trata-se de uma diva em vestido de chita com presença indelével na cena musical sergipana.
Lembro de tê-la ouvido, quiçá pela primeira vez, no rádio de uma Rural, numa viagem iniciada bem cedinho. Ela falava, balançava um chocalho de boi e transmitia recados do povo. Era a lajense Serigy tangendo o seu inconfundível e prestigiado programa Forró no Asfalto.
Antes mesmo de nascer o sol, os bilhetes orais de Clemilda raiavam a madrugada radiofônica: fulano ou sicrana, de tal cidade ou povoado, mandava dizer a Zé ou Maria não sei das quantas, lá em qualquer outro cafundó, um recado de muita importância. Eram correspondências soltas no ar.
Há um tempo no qual a gente começa a espelhar pessoas encontradas na vida, em outras que descobrimos nos livros. Foi quando reconheci em Clemilda a presença de Francisco, o Homem: o cantador que percorreu as redondezas de Macondo divulgando em cantigas as notícias que o caminho lhe confiava.
O mesmo ofício, o mesmo povo, a mesma sorte de quem fala ou canta sem saber se a mensagem chegará ao ouvido certo. Quem mandava dizer não sabia se seria escutado; quem ouvia, tantas vezes, recebia o que não esperava — como Úrsula, que, à espera de notícias do filho, ouviu a nota de falecimento da própria mãe.
Além de Clemilda, eu ainda ouvia falar de outro artista sergipano, do mesmo modo identificado com a música regional, a sanfona e o forró. Sanfoneiro e cantador, suas composições e interpretações musicais também tocavam no rádio: era Josa — O Vaqueiro do Sertão.
Clemilda e Josa preencheram um novo espaço na minha percepção sobre a manifestação musical. Eu não os via em capas de discos ou em fotos de revistas, nem os encontrava de corpo presente. O espaço deles era para mim uma faixa intermediária e peculiar de exposição: os programas locais de rádio.
Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.
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Lembro-me do programa de rádio de Clemilda. "Forró no Asfalto." Ouvia no antigo rádio da minha casa. Com Gerson Filho e Clemilda. Tempos dourados do rádio. Pessoas que ficaram pra sempre na memória da nossa cultura. (Comentário enviado pelo WhatsApp e transcrito aqui).
Esse capítulo me conduziu a duas boas lembranças: - meu irmão Milton era fã de Clemilda. Sempre que possível, ia a arraiais onde ela gostava de cantar. - Outra recordação, está ligada ao desenho da Rural. Quando criança, minha família frequentava a Igreja Presbiteriana Independente. Ela tinha uma Rural que era usada como meio de transporte de membros para evangelismo em bairro distantes e municípios do nosso estado. Boas lembranças. (Comentário enviado pelo WhatsApp e transcrito aqui).
Sempre é bom ler, escritos inteligentes.
E nessa "casa" , mais claro nessa família... é doutor , poeta , escritor pintor: tudo inteligente.
Clemilda era a cantora preferida de uma irmã minha. Aparecia TV. Em São Paulo ,vi uma vez. Merece o destaque.
Muito bom 👏🏾👏🏾