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Capítulo VIII - Um parêntese para Regi, o alfaiate teatral

há 17 minutos
2 min de leitura
Articulistas em rede. A fumaça da música. Regi, o alfaiate teatral. Tangos e Tragédias. Antonio Passos de Souza.

Naquela mesma época e ainda em Ribeirópolis, transparecia em mim um interesse por música maior do que o comum, entre garotos da minha idade. Nesse fervor, fui apresentado a um alfaiate chamado Regi, que tocava violão e trabalhava na alfaiataria de Tonho Saracura.


Percebi logo que Regi não era um músico muito habilidoso. Ele tinha alguma dificuldade em harmonizar, no violão, os acordes armados por uma das mãos e a batida ou dedilhado feitos com a outra.


Era desses artistas cuja intenção vale por duas vezes a execução — o que, se não agrada aos ouvidos alheios, ao menos enternece. Mesmo assim, cantava e tocava nas missas da igreja católica.


Além dos hinos religiosos, o alfaiate tateava um punhado de canções do tempo – dizia ele – em que fora notívago nas andanças de uma boemia musical. As limitações artísticas eram compensadas por uma boa vontade e disposição, sempre presentes, em mostrar e transmitir o pouco que sabia.


Daquela convivência amistosa aprendi a tocar uma canção: Menina Feia. Era uma das faixas do LP Renato e Seus Blue Caps (1967) — música que, constatei muito depois, Regi cantava e tocava de modo deveras pessoal.


Aliás, o alfaiate tinha um estilo musical tão próprio que todas as canções na interpretação dele acabavam muito parecidas entre si.


Uma voz sincopada e expressões faciais dramáticas, contorcidas entre farto bigode e olhos rutilantes, tragavam e remodelavam tudo que ele interpretava ao violão e à voz.


Décadas mais tarde, quando eu já não sabia do paradeiro de Regi, conheci um artista com algo que me trouxe de volta uma centelha do amigo músico de antanho, tanto no modo de cantar quanto na feição: refiro-me a Hique Gomez (ou Kraunus Sang), da dupla gaúcha Tangos e Tragédias.


O meu primeiro contato com os excêntricos do extremo sul brasileiro deu-se pela TV. Foi em uma daquelas memoráveis noitadas, nas quais o comediante Jô Soares fazia gargalhar a plateia ao vivo e o país inteiro com o seu talk show. Os gaúchos estiveram lá.


Do Tangos e Tragédias guardo até hoje como relíquia — mesmo após já ter ultrapassado o portal da idosa idade — o CD homônimo que reúne gravações ao vivo, realizadas em 1988, ‘92 e ‘97, no Theatro São Pedro de Porto Alegre, lançado pela Sbornia Records. Um dos mimos dessa relíquia é a capa em forma de livreto.


Mas a memória, mesmo oscilante, tem autonomia e prescinde de materialidade presente para visitar o passado. Na minha galeria de troféus etéreos consta ter visto e ouvido, certa vez, os embaixadores da Sbornia, ao vivo em uma apresentação, quando morei em Brasília…


No mesmo labirinto flana o vulto do expressionismo facial e vocal do alfaiate Regi. A memória nem sempre distingue o estrondoso do paroquial; guarda o que tocou o coração.


Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.

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