Capítulo III - Um pouco de história e, quiçá, sociologia dorenses
- Antonio Passos de Souza

- há 9 horas
- 3 min de leitura

Do lado oposto ao que morávamos, na mesma praça, residia um casal, dona Aurinha e seu Edson. Eu a chamava de vó e neto dela eu me sentia. A ele eu chamava de tio. Assim era o casal para mim e pronto: vó Aurinha e tio Edson. O sangue que não corria nas veias fluía no afeto, e disso me bastava.
Guardo na memória imagens congeladas, como fotografias, dos dois sentados na calçada da nossa casa, conversando e rindo, na companhia do meu pai, da minha mãe e de outras pessoas — aqueles encontros aconteciam quase todas as noites.
Outras vezes, aqueles antigos retratos ganham algum movimento, como em super slow motion, com um longínquo eco de risadas ao fundo. Não saberia dizer de que riam; sei apenas que o riso existiu e, de algum modo, ainda existe, na alma daquelas imagens como música num disco.
Tio Edson tinha uma fazenda, a Mão da Onça – nome que me sugeria algo de selvagem, embora eu ainda não soubesse do personagem Tarzan – e era dono de uma farmácia. Meus pais eram artesãos: ele sapateiro e mamãe costureira.
Se compararmos as localizações sociais hoje em dia — de um sapateiro e uma costureira que há muito deixaram de produzir peças novas e agora fazem apenas consertos e ajustes — com as de um fazendeiro ou de um proprietário de farmácia, restará evidente a raridade de serem vizinhos de residência ou integrarem um mesmo grupo social.
Gente de pouca idade, que não teve vivência no interior sergipano de meados do século passado, coçará a cabeça: como podia um fazendeiro, sentar-se, conversar e rir noites sem fim na calçada de um sapateiro? Pois sentava-se, e ria-se, e a noite não pedia explicações. Porque aquele era outro mundo.
Nossa Senhora das Dores ainda não fora então alcançada pelo comércio de roupas e sapatos industrializados. As famílias que dispunham de boa situação financeira encomendavam e compravam suas vestes e calçados à costureira e ao sapateiro. Escolhiam o tecido ou couro, o modelo, a cor — e esperavam. Havia uma fila da espera, e essa fila era também um título de honra.
Era como se estivéssemos em uma “Idade Média” sergipana, na qual as corporações de ofício tinham prestígio. Com a diferença de que, aqui, não havia peste bubônica — apenas um ou outro mosquito que ainda não era da dengue: picava, coçava, irritava, mas sem fatalidade.
Dali para a frente os produtos da indústria começaram a inundar as nossas vidas, trazendo lucros para a intermediação comercial e grandes dificuldades para a artesania. O progresso, esse visitante que entra sem pedir licença, trazendo presentes para uns e sombras para outros, chegou e se instalou sem cerimônia.
E não foram apenas as roupas e os calçados, prêt-à-porter, que abarrotaram as cidades. Os discos de vinil e as fitas K-7 também — e com eles, a mesma agulha de diamante que me fazia pasmar no capítulo anterior.
Quando comecei a tomar consciência de estar no mundo, na praça onde eu morava, presenciei o despontamento da circulação musical como um fluxo artístico conduzido pela indústria fonográfica.
Não entendia nada daquilo, claro. Mas eu de calças curtas, o vizinho, o sapateiro, o farmacêutico e a costureira — todos, sem saber, estávamos ensaiando os primeiros passos de uma dança que se expandia pelo mundo afora, até os mais remotos rincões.
Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.
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