Joubert Moraes: seu tempo, um ciclo
- Luiz Eduardo Oliva

- há 4 minutos
- 4 min de leitura

No final dos anos sessenta, o mundo vivia um reboliço, literalmente. “1968 foi o ano que não acabou”, disse Zuenir Ventura. E continua inacabado, como o século XX, enquanto este que vivemos teima em não acontecer. Em Paris, as barricadas dos estudantes enfrentavam o establishment. Nos EUA, outra onda varria o mundo. Woodstock foi a maior revolução sem disparar um único tiro. Jimi Hendrix e Janis Joplin foram as principais referências de uma juventude que resolveu dizer “chega”, que tinha o sentido de um “basta” aos costumes mofentos e corroídos da hipocrisia — um basta às guerras, onde o Vietnã era a Gaza dos dias de hoje. E eu era só “um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones”.
Fato: eu era só um garoto. Mas, antes de mim, já existia uma tribo de jovens sobretudo inconformados. E Aracaju era uma cidade carcomida por uma sociedade centrada no patriarcalismo e no padrão vestal da vida: enquanto se ia à missa aos domingos, os senhores vestais iam ao Vaticano — não o da Basílica de São Pedro, mas aquele que abrigava os “cabarés” de uma Aracaju noturnamente boêmia. Dá para acreditar? Sim, dá.
Tudo seguia o ritmo natural das coisas, tanto em Aracaju como em alhures. Uma sociedade totalmente revestida de uma moralidade incorporada como dogma. E quem haveria de contestar? Se as barricadas de Paris, os alucinógenos de Woodstock e o som dos Beatles e Rolling Stones davam o tom daqueles anos no mundo, na capital do menor estado do país uma parcela da juventude não ficou indiferente; muitíssimo pelo contrário.
Dizia Marquinhos do Rio (onde andará?) que no Parque Teófilo Dantas, no centro de Aracaju, ficava a “duodécima porta do inferno”, numa alusão aos nove círculos do inferno, pela iconoclastia que se estabeleceu naquela juventude que girava em torno da recém-inaugurada Galeria de Arte Álvaro Santos. O inferno de Dante comportava só nove! E Sergipe, tal qual araruta, teve seu dia/tempo de mingau! E aquele grupo fez acontecer como no resto do mundo. Uma geração, aliás, que precisa ser estudada. Que resistiu ao banal e, pela arte, apontou para um novo porvir, pavimentando o terreno para a minha leva e para as seguintes. Aracaju, como já disse em outro texto, era uma explosão de variados saberes e impactantes fazeres.
O poeta Mário Jorge era a liderança natural, pela sua irreverência, genialidade e criatividade. Ao seu lado, os compositores Alcides Mello, Marcos Chulé e Zenóbio Alfano; os poetas Amaral Cavalcante e Hunald Alencar; a poeta Mara Lopes; o artista plástico Joubert Moraes; a atriz Wilma Rodrigues (Nêga); o cronista João de Barros (o Barrinhos); o cinéfilo Djaldino Mota Moreno; a jornalista, poeta e cineasta Ilma Fontes; as jornalistas Clara Angélica (também cantora) e Lânia Duarte (também artista plástica); o fotógrafo Marinho Neto; o tapeceiro e também colunista Luiz Adelmo; e alguns mais jovens estavam ali como “noviços”, a exemplo de Caio Rubens, do poeta Vinicius Dantas e de Hugo Julião. Eu via, na “cuca” (para usar uma palavra da época) anotava e depois passei a interagir também. Claro que não eram só esses, mas aí está um punhado altamente representativo. Muitos já partiram, outros saíram de cena.
Pois que, no apagar das luzes do último mês de julho, saiu de cena definitivamente um dos mais icônicos daquela troupe, o multifacetado e performático artista Joubert Moraes. Tendo incursionado na pintura, desenho, escultura, música, cenografia, poesia e diversas outras linguagens artísticas, ele marcou de tal maneira a cena aracajuana que havia até o neologismo “Aracajoubert”. Amaral Cavalcante, outra referência importante daqueles anos, dizia que Joubert era o melhor dentre eles, na acepção da palavra “artista”.
Muito se fez, muito se aprontou, como se dizia. Mas foi sobretudo a montagem de "Voo Mitos Coloridos" o espetáculo-marco daquele movimento. O título já dizia tudo. Na cacofonia, formava "vômitos coloridos"; queria dizer da necessidade de vomitar coloridamente tudo o que fosse caretice e anunciar um novo tempo, psicodélico, da contracultura, woodstockiano, das revoltas das barricadas de Paris, dos cânones da revolução sexual e também da afirmação libertadora da voz feminina. Muitos dos nomes acima referidos fizeram parte da montagem. Joubert Moraes é citado sempre como um dos principais idealizadores do espetáculo, senão o principal.
Esse Joubert que nos deixou, pode-se dizer que representou a síntese de sua época. Na forma de viver; na deliciosa casa que tinha justamente na avenida Mário Jorge, seu parceiro e amigo querido; na música que criava e interpretava; mas principalmente na pintura que trazia tons psicodélicos, com cores pastel em movimento, como eram os quadros de coqueirais ao vento. Alguns, como um que tenho, parecem mesclar um pouco da pintura clássica sem ser antiga, mas para além do seu tempo, parecendo caminhar livremente entre a justa proporção clássica renascentista, o psicodelismo surrealista e o abstracionismo expressionista.
Vivem-se tempos terríveis. O século XXI teima em não acontecer; há até um retroceder numa espiral de mediocridade que contrasta com a evolução cibernética. A partida de Joubert Moraes nos convida à reflexão. Ele foi um personagem que, sobretudo, ousou. Ousou e quebrou estruturas carcomidas, pensamentos que insistem em querer voltar. Nesse mundo de superfícies, mergulhar por alguns momentos em personalidades como a de Joubert, para além da homenagem que se deve prestar ao grande artista, faz-se necessário também para refletir sobre o seu legado — não só no fazer artístico, mas no ato de se posicionar no seu tempo e buscar transformá-lo. Ave, Joubert!
Ilustração: enviada pelo autor do texto.
Obrigado por ter lido este artigo. Se gostou da leitura, por favor, dê um click no coraçãozinho que está do lado direito, um pouco mais abaixo. Valioso também é receber um comentário seu e isso pode ser feito descendo um pouco mais na rolagem da página e escrevendo no espaço Escreva um comentário. Temos fé no diálogo! Os artigos assinados são de inteira responsabilidade dos seus autores, não correspondendo necessariamente com a opinião do Articulistas em rede.








Comentários