A seleção da cascata: de volta ao complexo de vira-latas

Reta final da Copa do Mundo de 2026. Domingo, 19 de julho, o mundo conhecerá o novo vencedor de mais uma Copa, a última antes de completar 100 anos de duelos mundiais iniciados em 1930 no Uruguai, que foi o primeiro campeão. Das 24 Copas realizadas, o torneio só não aconteceu nos anos de 1942 e 1946 por conta da Segunda Guerra Mundial. O Brasil é o maior campeão com cinco conquistas, dois vices, dois terceiros lugares e dois quartos lugares; ou seja, em quase metade das Copas realizadas, estivemos entre os quatro melhores.
Infelizmente, a seleção que nos tirou o complexo de vira-latas é a mesma que o está devolvendo da forma mais vil possível. Explico: o Brasil se arrastou por anos no subdesenvolvimento. O mundo progredia enquanto o país vivia como quem dormia "em berço esplêndido". A acomodação brasileira era secular. Fomos o último país do Ocidente e das Américas a abolir a escravidão. Felizmente, foram os filhos dos desvalidos que deram à nação os ingredientes necessários à formação de um sentimento de identidade nacional, justamente através do futebol. É marcante, para os mais antigos, o momento na final da Copa de 1958, justamente em um país nórdico, na Suécia: quando a seleção da casa fez o primeiro gol, Didi — a quem Nelson Rodrigues chamava de “Príncipe Etíope de Rancho” — pegou a bola no fundo da rede, chamou o elenco e foi caminhando até o meio do campo para a saída.

Conta a lenda que Didi foi dizendo a cada um: "não atravessamos o oceano para perder desses gringos. Nós somos os melhores do mundo e esse caneco será nosso". Caneco era a referência à Taça Jules Rimet, o troféu da época. E o que se viu foi a estupenda vitória de 5 a 3, quando fomos campeões pela primeira vez. Quando o rei Gustavo VI Adolfo desceu para a entrega da taça, foi ofuscado por outro rei que era entronizado naquele momento, o maior de todos, um rei único e jamais igualável, um rei de todo o mundo, o mundo do futebol — justamente o esporte que tem como objeto principal aquilo que é a imagem e semelhança do planeta Terra: a bola! Ali o mundo conhecia, para nunca mais esquecer, o Rei Pelé, um garoto de 17 anos que assombrou o planeta. Com ele e com aquela seleção, pudemos finalmente superar, ainda que momentaneamente, nossas seculares mazelas e dizer: somos os melhores do mundo!

Foi daquela seleção feita de filhos de desvalidos na sua maioria, saídos de campos de pelada e de várzea, que veio a superação do que Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira-latas”. Daquele histórico julho de 1958 já se passaram quase 70 anos. O orgulho nacional se fazia por uma camisa amarela (se bem que a Copa de 1958 foi ganha com uma camisa azul — diziam, à época, que era a cor do manto da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida).
Nas Copas seguintes, até 1970, a totalidade do elenco era de jogadores que atuavam exclusivamente em times brasileiros. Nas duas últimas conquistas, se não era a totalidade, era a grande maioria: em 1994, 11 atletas do elenco atuavam no futebol nacional; na conquista de 2002, o penta, 12 eram de times brasileiros. Na atual, apenas sete. Melancolicamente derrotados, apenas um retornou ao Brasil no avião simbolicamente vazio: vazio de garra, vazio de brasilidade, vazio de amor à camisa, vazio de um futebol-arte. Já nem o técnico é brasileiro. Infelizmente, parece que estamos retrocedendo ao complexo de vira-latas.
P.S.: Nos artigos que escrevo periodicamente para o Jornal da Cidade e portais da internet (Articulistas em Rede e Radar SE), debrucei-me, neste período da Copa, para registrar histórias e fatos que relacionavam Sergipe ou os sergipanos à seleção brasileira. A previsão era de cinco textos, mas a série foi interrompida no terceiro após a melancólica eliminação desta equipe "estrangeira". Quem sabe, no futuro, o brio deste torcedor retorne para concluir os dois restantes. Nossa história com o futebol é maior e mais permanente do que este último fracasso.
Fotos: Redes Sociais / Reprodução.
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Excelente artigo. Uma análise histórica crítica digna de parabéns meu querido amigo e ex acessor jurídico na Semed/ sempre brilhante!!! Abraços
Infelizmente o ego tomou conta dos jogadores, os deixando desprovidos de garra e patriotismo.
Bela matéria, uma escrita irretocável.
Também parabenizo esse portal, pois fomenta o hábito de ler e pensar.
Excelente texto!