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A seleção da cascata: de volta ao complexo de vira-latas

18 de jul.
3 min de leitura
Articulistas em rede, triste fim do Brasil na Copa do Mundo de 2026
Triste fim do Brasil na Copa do Mundo de 2026

Reta final da Copa do Mundo de 2026. Domingo, 19 de julho, o mundo conhecerá o novo vencedor de mais uma Copa, a última antes de completar 100 anos de duelos mundiais iniciados em 1930 no Uruguai, que foi o primeiro campeão. Das 24 Copas realizadas, o torneio só não aconteceu nos anos de 1942 e 1946 por conta da Segunda Guerra Mundial. O Brasil é o maior campeão com cinco conquistas, dois vices, dois terceiros lugares e dois quartos lugares; ou seja, em quase metade das Copas realizadas, estivemos entre os quatro melhores.


Infelizmente, a seleção que nos tirou o complexo de vira-latas é a mesma que o está devolvendo da forma mais vil possível. Explico: o Brasil se arrastou por anos no subdesenvolvimento. O mundo progredia enquanto o país vivia como quem dormia "em berço esplêndido". A acomodação brasileira era secular. Fomos o último país do Ocidente e das Américas a abolir a escravidão. Felizmente, foram os filhos dos desvalidos que deram à nação os ingredientes necessários à formação de um sentimento de identidade nacional, justamente através do futebol. É marcante, para os mais antigos, o momento na final da Copa de 1958, justamente em um país nórdico, na Suécia: quando a seleção da casa fez o primeiro gol, Didi — a quem Nelson Rodrigues chamava de “Príncipe Etíope de Rancho” — pegou a bola no fundo da rede, chamou o elenco e foi caminhando até o meio do campo para a saída.


Articulistas em rede, Seleção Brasileira de Futebol na Suécia, Copa do Mundo de 1958
Seleção Brasileira de Futebol nos gramados da Suécia, na Copa do Mundo de 1958

Conta a lenda que Didi foi dizendo a cada um: "não atravessamos o oceano para perder desses gringos. Nós somos os melhores do mundo e esse caneco será nosso". Caneco era a referência à Taça Jules Rimet, o troféu da época. E o que se viu foi a estupenda vitória de 5 a 3, quando fomos campeões pela primeira vez. Quando o rei Gustavo VI Adolfo desceu para a entrega da taça, foi ofuscado por outro rei que era entronizado naquele momento, o maior de todos, um rei único e jamais igualável, um rei de todo o mundo, o mundo do futebol — justamente o esporte que tem como objeto principal aquilo que é a imagem e semelhança do planeta Terra: a bola! Ali o mundo conhecia, para nunca mais esquecer, o Rei Pelé, um garoto de 17 anos que assombrou o planeta. Com ele e com aquela seleção, pudemos finalmente superar, ainda que momentaneamente, nossas seculares mazelas e dizer: somos os melhores do mundo!


O Rei Gustavo, da Suécia, cumprimenta Pelé, o Rei do Futebol, após a conquista do primeiro título de campeão mundial pelo Brasil, em 1958
O Rei Gustavo, da Suécia, cumprimenta Pelé, o Rei do Futebol, após a conquista do primeiro título de campeão mundial pelo Brasil, em 1958

Foi daquela seleção feita de filhos de desvalidos na sua maioria, saídos de campos de pelada e de várzea, que veio a superação do que Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira-latas”. Daquele histórico julho de 1958 já se passaram quase 70 anos. O orgulho nacional se fazia por uma camisa amarela (se bem que a Copa de 1958 foi ganha com uma camisa azul — diziam, à época, que era a cor do manto da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida).

Nas Copas seguintes, até 1970, a totalidade do elenco era de jogadores que atuavam exclusivamente em times brasileiros. Nas duas últimas conquistas, se não era a totalidade, era a grande maioria: em 1994, 11 atletas do elenco atuavam no futebol nacional; na conquista de 2002, o penta, 12 eram de times brasileiros. Na atual, apenas sete. Melancolicamente derrotados, apenas um retornou ao Brasil no avião simbolicamente vazio: vazio de garra, vazio de brasilidade, vazio de amor à camisa, vazio de um futebol-arte. Já nem o técnico é brasileiro. Infelizmente, parece que estamos retrocedendo ao complexo de vira-latas.


P.S.: Nos artigos que escrevo periodicamente para o Jornal da Cidade e portais da internet (Articulistas em Rede e Radar SE), debrucei-me, neste período da Copa, para registrar histórias e fatos que relacionavam Sergipe ou os sergipanos à seleção brasileira. A previsão era de cinco textos, mas a série foi interrompida no terceiro após a melancólica eliminação desta equipe "estrangeira". Quem sabe, no futuro, o brio deste torcedor retorne para concluir os dois restantes. Nossa história com o futebol é maior e mais permanente do que este último fracasso.


Fotos: Redes Sociais / Reprodução.

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3 comentários


Iara Campelo
19 de jul.

Excelente artigo. Uma análise histórica crítica digna de parabéns meu querido amigo e ex acessor jurídico na Semed/ sempre brilhante!!! Abraços

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Amaury Vasconcelos
19 de jul.

Infelizmente o ego tomou conta dos jogadores, os deixando desprovidos de garra e patriotismo.


Bela matéria, uma escrita irretocável.


Também parabenizo esse portal, pois fomenta o hábito de ler e pensar.

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Marcone Augusto Araújo Borges
19 de jul.

Excelente texto!

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