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Capítulo II - O romance entre discos e agulhas

5 de ago.
2 min de leitura
Capítulo II - O romance entre discos e agulhas. Articulistas em rede.

Façamos um breve regresso ao ponto em que paramos, como quem ata uma nota a outra por uma ligadura. Conforme já anunciado: “A segunda e a terceira lembranças diferem da primeira por não caberem num único dia, ainda que tenham alguma vizinhança temporal com o espetáculo da banda (…) suponho que tais fatos ocorreram entre 1969 e 1971.”


Distinguiam-se ainda da primeira evocação porque, em lugar de músicos ao vivo, a fonte musical, em ambos os casos, era eletrônica. Havia sim uma causa sonora remota que se parecia com o desfile ao vivo da banda: foi o que me disseram, e eu acreditei — não sem uma ponta de assombro, que é jeito de acolher o que desconcerta.


Por sugestão da gente grande, passei a jurar que eram também pessoas, de carne e osso, tocando instrumentos e cantando. Todavia, não estavam ali, de corpo presente, no momento da escuta. Havia um jeito de fazer a música circular por tempos futuros e lugares distantes daqueles onde os artistas haviam realizado a interpretação que depois se ouvia — arte de feiticeiro, digna de espanto.


Foi quando conheci a magia dos discos pretos, gravados com raias circulares desde a extremidade até os limites de um rótulo ao centro; e no meio do dístico, um furo. Posto sobre um prato giratório e preso por uma miniatura metálica de menir que lhe atravessava o orifício central, o disco recebia o toque sutil de uma agulha a percorrer-lhe lentamente os sulcos… E, pasmem, leitoras e leitores: dali saía música!


Mas não pensem que era agulha comum, de costura. Era um braço móvel com um pontinho brilhante na ponta — diamante, diziam os anúncios, com a pompa que os comerciantes emprestam às miudezas. Com o tempo, a agulha ficava rombuda e o som, prejudicado; até começar a pular e não tocar mais música nenhuma, como sapatilha furada que já não serve ao dançarino. Trocava-se a agulha e a magia recomeçava: a música estava no ar.


Era um jeito novo e deslumbrante de ouvir música. Além da sonoridade, havia o romance dos discos pretos com as agulhas lustrosas. A cada toque entre o casal de enamorados, vinha aquele chiadinho característico, o anúncio da chegada musical, batendo à porta dos nossos ouvidos. Era a música do mundo a entrar na pequena cidade — e eu, menino, nem desconfiei de que estava sendo iniciado num dos maiores prazeres da vida.


Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.

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2 comentários


Adriana (WhatsApp)
05 de ago.

Fui invadida pela sonoridade única e sobressaltada pela sinestesia do seu texto. Amei. (Esta mensagem foi enviada para o autor pelo WhatsApp e transcrita aqui).

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Convidado:
05 de ago.

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