Capítulo XIV - O proibido e o televisivo nos anos 1970

Restou-me a impressão de que o miolo da década de 1970 foi um tempo de certa bifurcação na cena musical.
A música ouvida nas fitas K-7 do meu irmão Luciano, e que me havia tocado o gosto, não era a mesma que aparecia nos meios de comunicação de massa.
Os revolucionários compositores revelados nos festivais dos anos 1960 davam de cara com a censura oficial e sofriam repulsa moral conservadora.
Com o passar do tempo, certamente por conta das ocupações rotineiras que se vão modificando sem parar, as escutas musicais em companhia de Aninho — como eu o chamava — foram rareando.
Na ausência do gravador a tiracolo e das fitas K-7, agora a TV — mais que o rádio — assumiu o lugar de fonte principal da música que me alcançava.
Já naquele tempo e mesmo sem conhecer a palavra, minha percepção identificava as queridinhas da mídia como mero “entretenimento” superficial.
As letras, quase sempre, me pareciam bobas e as sonoridades muito uniformes do começo ao fim. Além disso, havia um apelo embutido para a adesão a novas danças e roupas, tudo bem enquadrado.
Aquele foi o tempo em que o programa dominical de Silvio Santos, na TV, tinha enorme audiência. No circo eletrônico do homem do Baú da Felicidade havia alguns coroados da música.
Entre esses reinava soberano o português Roberto Leal, dono de sucessos do momento, tais como “Arrebita” (1971) e “Bate o Pé” (1975).
Meu coração batia ávido pelas canções de vanguarda, trazidas pela conexão universitária do meu irmão. E eu, diante da tela — com a cabeça no mundo da lua — via passar as dancinhas janotas do lourinho lusitano.
Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.
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