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Capítulo XIII - Aparições de Gonzagão

há 9 horas
2 min de leitura
A fumaça da música. Aparições de Gonzagão. Antonio Passos de Souza. Articulistas em rede.

Tanto no litoral quanto no interior sergipanos — generalização que faço com base em Ribeirópolis e Aracaju — o inverno era um bálsamo musical.


Com a proximidade dos festejos juninos parecia que o mundo todo lá fora se desligava e nos deixava esquecidos, para cairmos de maduro nos braços do São João.


Sim, São João ainda hoje é o nome mais usado para abarcar toda a festança. Contudo, como se sabe, além do famosão, são mais dois os festejados em junho: Santo Antônio e São Pedro.


As vitrolas e os rádios davam de ombros para tudo o que não fosse forró. A sanfona e a voz de Luiz Gonzaga soavam por toda parte, como uma segunda — ou seria primeira? — atmosfera a nos aconchegar.


Esse era um dos modos de aparição do Rei do Baião, assemelhando-se ele a um santo padroeiro em tempo de sua festa. Chegava, comovia os corações e depois recolhia-se ao panteão.


E não foi só isso: recebi ainda a graça de vê-lo e ouvi-lo, tal qual numa epifania. Aconteceu em uma das temporadas de férias escolares, em Ribeirópolis.


Num belo dia passou a correr a notícia de que Luiz Gonzaga estava a caminho e se apresentaria em uma fazenda de Manuel Passos, um pioneiro local no transporte de gente em pau-de-arara, de Sergipe a São Paulo.


Todo mundo quis ir e logo apareceram caminhonetes e outros meios para levar o povo. Não lembro com quem fui; só sei que ainda menino, lá cheguei.


Nenhuma recordação também do caminho de ida ou de volta. Tudo o que permanece é a música e a imagem do Rei do Baião, de sanfona e peito abertos sobre a carroceria de um caminhão.


Naquele instante fugidio e infinito, vibraram por todo o descampado os versos de A triste partida, a toada do poeta Patativa do Assaré na voz de Gonzagão.


A gravação está em uma das faixas do LP de mesmo nome, lançado em 1964 — embora já estivéssemos, é certo, na década seguinte.


Este capítulo, assim como o dedicado ao alfaiate Regi, também assume a feição de parêntese — necessário, por sinal.


Seria frágil ou nenhuma — sem a presença de Luiz Gonzaga — a substância espiritual telúrica de um rabisco memorial e musical, enraizado no Nordeste brasileiro da época.


Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.

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1 comentário


Izabel Melo
há 5 horas

Grande Luiz Gonzaga! Ouvir a " Triste Partida" sempre me deixa emocionada e traz muitas recordações.

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