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Roteiro para um baú de afetos: Francisco J. C. Dantas!

Francisco J. C. Dantas, Articulistas em rede, Luiz Eduardo Oliva

O que na palavra “sodalício” possa parecer pedante, altamente usado por integrantes de academias de letras, a rigor esconde a origem latina do termo sodalitium, que quer dizer “companheirismo”. Foi com esse espírito que saímos de Aracaju. Conduzidos pelo piloto Silvan Aragão, sob o olhar atento de Expedito Souza — e no carro também com minha companheira Monica —, além da companhia de Antônio Saracura das Academias Sergipana de Letras e da congênere de Itabaiana, rumamos para Riachão. O motivo era o mais singular dos lançamentos de livros, escrito para declarar a benquerença a uma comunidade pelo mais literário dos filhos de uma terra literária: o “Roteiro Afetivo”, do consagrado romancista Francisco J. C. Dantas.


Éramos cinco, em um dia 15 do mês 5. Fomos recebidos pelo exuberante arrebol que iluminava a Praça Nossa Senhora do Amparo. É lá que se situa, agora imponente, o Memorial que leva o nome do homenageado daquele fim de tarde. Saracura logo se disse impressionado com a beleza que se descortina do alto do relevo da praça: o descampado da campina esverdeada, um natural e deslumbrante cartão-postal. Riachão é, inegavelmente, uma das mais belas e ainda bucólicas cidades sergipanas.


O salão do antigo prédio da prefeitura, agora casa de memória, estava lotado: parentes do homenageado, moradores da cidade e admiradores vindos de outras paragens. Destacava-se, principalmente, a emoção do ato com o lançamento sui generis de um livro feito com o objetivo único de um escritor consagrado homenagear a sua Aracataca — que, na obra de Gabriel García Márquez, imortalizou-se como a fictícia cidade de Macondo. Francisco J. C. Dantas não precisou criar uma "Macondo" para dizer ao mundo as histórias que vivenciou. Para além do vivido, ele imprimiu toda a engenhosidade dos grandes escritores da humanidade, confirmando a máxima tolstoiana: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia".


Francisco J. C. Dantas, Articulistas em rede, Riachão do Dantas

Olho para o artista das palavras. O cenho circunspecto indica mais timidez do que distanciamento. Na entrada, todos queriam uma foto, uma breve conversa. Aproximar-se de grandes personalidades é da natureza humana, mas, no riachãoense Francisco, isso contrasta com sua profunda simplicidade. Aberta a solenidade, foi celebrada a presença de sua principal companhia de afeto (para usar a palavra-título do livro) e de literatura, Maria Lúcia Dal Farra. Cintilante como sempre, ela nos proporcionou dois grandes momentos: o de sua posse como acadêmica correspondente da Academia Riachãoense de Letras, Artes e Cultura (ARLAC), engrandecendo ainda mais o “sodalício”, e a sua fala para apresentar o "Roteiro Afetivo", que narra a Macondo-Riachão do autor! Uma Riachão que, na obra do escritor, ganha ainda mais charme sob o nome de Riachão do — Francisco José Costa — Dantas!


Seguiu-se a fala do nosso García Márquez. Ou seria o nosso Graciliano? Ou o nosso Guimarães Rosa? Nenhum deles, mas à altura de todos: o nosso Chico! Ele deu à sua cidade-berço o maior dos presentes: um livro que não estará (peço vênia para divergir!) no circuito comercial e que não foi vendido. Afinal, presentes não se vendem, entregam-se! E foi exatamente isso: a entrega, pelo autor, de um presente único, singular, sentimental, querençoso e amoroso à terra que ri!


Consagrado para além do Brasil (recebeu, entre tantos reconhecimentos à grandeza de sua obra, o Prêmio Internacional da União Latina de Literaturas Românicas, na Itália), mais Francisco que Chico, nem tão Buarque, mas igualmente vasto, no cadenciado ritmo de suas palavras revestidas da emoção de um momento único na literatura, ele nos brindou com uma telúrica declaração de amor ao chão que deu o tom à sua prosa densa e alegoricamente memorialística. Nas entrelinhas, mostrou que aquele livro fora do circuito comercial, antes de dizer de sua gente, diz à sua gente e à sua terra — tão dele e de todos os presentes (embora, ao sugerir “entrelinhas” do dizer do romancista, corra-se o risco de díspares interpretações).


Na sequência, iniciou-se a entrega dos livros pelas mãos do autor, parte deles pré-autografados a partir de uma lista concedida pela ARLAC. Foi aí que bateu a agonia ao notar que meu nome não havia sido incluído na lista. Veio a angústia de enfrentar os emblemáticos 100 km de retorno sem o preciosíssimo exemplar de um livro tão singular. O contratempo foi remediado por um livro que consegui com a organização do evento (a mesma que esqueceu meu nome) e recebi com a folha de autógrafos em branco. Fui até o nosso Chico, que o autografou dizendo, por não ter visto meu nome na lista: "Achava que você não vinha".


Jamais perderia esse que foi o maior momento — falo em ato, em efeméride, em acontecimento na cidade que ri (ria chão!) e que abriga, com o aval de parte considerável da crítica literária, o maior romancista vivo brasileiro: Francisco J. C. Dantas e seu roteiro para um grandioso baú de literários afetos!


Foto: Redes Sociais / Reprodução. Desenho: enviado por Luiz Eduardo Oliva.

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