Anedotários na cultura sergipana: medos
- Luiz Eduardo Oliva

- há 3 dias
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O culto ao bom humor é uma das salutares características para quebrar ranços de seriedade e descontrair o ambiente. Em Sergipe gerações atravessaram com boas histórias que se não contadas ou repetidas se perderão. Ouvi ou vivenciei algumas e não se pode esquecer das rodas em que se tinha um Alberto Carvalho, os irmãos Hunald e Clodoaldo Alencar Filho (Hunaldinho e Alencarzinho), um Amaral Cavalcante ou o Wagner Ribeiro que logo uma boa história, um chiste ou fatos engraçados eram narrados, acontecidos com personagens da nossa cultura. Daria um divertido livro reunir muitas delas.
Hunaldinho costumava recordar as excentricidades do itabaianense Nunes Mendonça, um dos maiores intelectuais dos anos 60. Prolífico autor voltado à educação e à cultura sergipana Nunes mantinha um serviço de alto-falantes em sua casa, na Rua Pedro Calazans. Em horários estapafúrdios, transmitia uma programação própria: dava aulas, tocava música clássica e convocava a vizinhança para tertúlias culturais ou palestras filosóficas que proferia no Instituto Histórico e Geográfico (IHGS). A depender do tema, contudo, o quórum era minguado.
Certa vez, em uma mormacenta sexta-feira do escaldante verão aracajuano, Nunes anunciou com entusiasmo uma palestra onde provaria, filosoficamente, a inexistência de Deus — tema difícil de ingestão à época. Já passava das 20h quando seu primo, o promotor Fernando Nunes, cruzou a frente do Bar Cacique Chá, no caminho do Instituto Histórico e o avistou sentado, bebendo tranquilamente uma cerveja.
— Primo, e a palestra? Já passou da hora! Vamos! — perguntou o dr. Fernando, confuso.
Nunes, sem se abalar, deu uma golada e respondeu:
— Sente aqui e acompanhe-me nesta cerveja. A palestra já foi dada... ou melhor, nem proferida! Ao chegar ao Instituto, encontrei o auditório infestado de protestantes de vários bairros, todos ávidos para ver como eu negaria a existência do Criador. Diante do risco de um linchamento confesso que tive medo e encontrei uma única saída. Iniciei dizendo: “Senhoras e senhores, dou cinco minutos para Deus provar que existe, lançando um raio sobre este vetusto Instituto e matando a todos nós!”.
— E aí? — Quis saber o primo.
— Não ficou um para ouvir o resto, Fernando. A cerveja é por minha conta!
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José Silvério Leite Fontes ou simplesmente Silvério Fontes – no ano passado foi comemorado o seu centenário – foi um dos nossos mais aplaudidos intelectuais, também pertencente aos quadros da Academia Sergipana de Letras. Filósofo, historiador de mão cheia e professor de Ética na velha Faculdade de Direito, Silvério não facilitava. Certo dia, um aluno reprovado sucessivas vezes o interpelou na porta da instituição:
— Professor, este já é meu terceiro semestre e o senhor me reprova! Dependo disso para me formar. Se não me passar, fique certo de que lhe darei um murro!
Silvério, chocado, levou o caso à congregação exigindo providências. Estava entre o medo de ver concretizada a ameaça ou ter que abdicar dos critérios rigorosos de suas avaliações. O clima era de revolta e indignação. No meio da discussão acirrada, o sempre espirituoso Professor Monteirinho com a calma dos que já viram de tudo, interveio com uma lógica impagável:
— Silvério, já apanhou? Não? Então deixemos Silvério apanhar e depois tomaremos as providências cabíveis!
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Manuel Cruz, advogado destacado, também foi presidente da OAB sergipana, morria de medo de morrer. Esse medo era tamanho que, certa vez, ao presenciar um atentado contra um cliente dentro de uma delegacia, atirou-se ao chão fingindo-se de morto para escapar dos algozes. Desde então, vivia pedindo a proteção de todos os santos.
Um dia, um amigo enviou-lhe um panfleto da funerária OSAF acompanhado de uma carta anônima: “Dr. Manuel, não deixe para amanhã o que não poderá fazer amanhã. Venha nos fazer uma visita e comprar seu jazigo perpétuo. O senhor, que já passou por tantos sustos, não deve ser pego desprevenido. Deixe que cuidaremos de tudo. Não irás se arrepender. Saudações e, se for sua hora, que tenha uma boa morte!".
O bom Manuel, que dividia o escritório de advocacia comigo, chamou-me indignado, querendo ligar para a funerária e "dar umas boas". Rasgou a correspondência e me arrastou até a Igreja do São Salvador no Calçadão da Laranjeiras, para pedir proteção divina. Eu, que já sabia da farsa, acompanhei-o com semblante circunspecto, fazendo um esforço hercúleo para não desabar em gargalhadas enquanto ele fazia repetidas vezes o sinal da cruz.

Ilustração: Articulistas em rede. Fotografias: enviadas por Luiz Eduardo Oliva.
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Não deixa de ser interessante. Se olhar pra um homem por fora....e por dentro ? Cadê o Homem. Principalmente em "grandes figuras". Também não deixa de ser legal!
Somos crianças quase sempre.