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A lua já não é mais dos namorados

A lua já não é mais dos namorados, Articulistas em rede, Luiz Eduardo Oliva

A Lua — nosso satélite, exclusivamente nosso, terráqueos que somos — sempre encantou a humanidade por seus mistérios e pela beleza do luar. Inspiradora de poetas e seresteiros, ela empresta seu brilho aos casais enamorados. Vinicius de Moraes, no "Soneto do Corifeu", advertia sobre os perigos desta vida "para quem tem paixão, principalmente quando a lua chega de repente e se deixa no céu como esquecida...". A Lua era um território sagrado e intocado até o surgimento da corrida espacial.


Quando o cosmonauta soviético Iuri Gagarin se tornou o primeiro ser humano a viajar pelo espaço, o mundo assistiu em assombro. Lá do alto, ele contemplou o planeta e disse: "A Terra é azul". A inspiração não faltou à nossa música, e Angela Maria fez sucesso no início dos anos 1960 com uma marchinha carnavalesca que ironizava: "Todos eles estão errados / A lua é dos namorados / Lua, oh lua / Querem te passar para trás / Lua, oh lua / Querem te roubar a paz / Lua que no céu flutua / Lua que nos dá luar / Lua, oh lua / Não deixa ninguém te pisar".


Em 1966, a sonda Luna 9 pousou suavemente no solo lunar — sem ninguém a bordo. No ano seguinte, no despertar do Tropicalismo, Gilberto Gil cantava o fim de uma era. Era o encerramento da licença poética para dar lugar à incursão tecnológica: "Poetas, seresteiros, namorados, correio / É chegada a hora de escrever e cantar / Talvez as derradeiras noites de luar" (Lunik 9).


Naqueles anos, a corrida espacial estava ligada diretamente à Guerra Fria, um período de tensão geopolítica, ideológica e econômica. Na disputa entre as duas maiores nações da época, os Estados Unidos e a então União Soviética, acreditava-se que quem chegasse primeiro ao satélite ganharia o direito de ditar as regras do mundo. De um lado, o Sputnik; do outro, o projeto Apollo. Embora não houvesse um campo de batalha aberto após o fim da Segunda Guerra Mundial, a ameaça da corrida armamentista era constante.


Agora, a humanidade assiste à missão Artemis II com o mesmo entusiasmo do final dos anos 1960, mas com um gosto um pouco mais amargo. O nome da missão é um contraponto à vitoriosa (porém interrompida) missão Apollo, que levou os primeiros seres humanos à Lua em 1969, com a Apollo 11. Ártemis é a deusa grega da Lua, irmã gêmea do deus Apolo. O nome atual é também uma homenagem às mulheres, já que esta missão não é composta apenas por homens.


As coincidências entre as duas eras dizem respeito ao momento vivido pela humanidade: continuamos olhando para as estrelas em busca do espaço, enquanto o chão que pisamos treme com guerras e ameaças de destruição. As palavras do presidente americano Donald Trump ao se referir ao Irã — "Uma civilização inteira morrerá esta noite" — fazem a corrida espacial parecer menos uma aventura e mais uma rota de fuga.


Gil, lá atrás, já dizia cético: "o homem vai à Lua buscar a esperança que aqui já se foi." Ficamos nós, atônitos, entre o clarão do armamento nuclear e o brilho do satélite. Se não cuidarmos do "planeta azul", a profecia do compositor baiano pode deixar de ser canção para virar fato. E a Lua, talvez, não seja mais de ninguém — nem dos russos, nem dos americanos, e muito menos dos namorados. Ou tomamos cuidado, ou estaremos vendo, de fato, as "derradeiras noites de luar."


Ilustração: enviada por Luiz Eduardo Olive com a seguinte nota: "Imagem produzida na internet por IA (só a imagem)".

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