O voto conservador e o pré-histórico

Ah, meu amigo Cid Adão! Encontrá-lo é sempre uma oportunidade de refrescar o espírito. Ouvir suas tiradas criativas e desconcertantes é o mesmo que enxergar uma realidade nua, desprovida de disfarces.
Nosso mais recente encontro casual, há poucos dias, foi no Parque da Sementeira. Parei a caminhada, puxei-o para a sombra de uma árvore e fiz a provocação da hora:
— Vai votar em quem este ano?
— Meu voto será 100% conservador — respondeu-me.
Fiquei surpreso, porque sempre soube da simpatia dele pelo pensamento de esquerda. Daí emendei outras perguntas:
— Sério? Mudou de lado? Vai votar na direita?
— Muito pelo contrário. Vou votar PSOL de cabo a rabo.
— Peraí, peraí… Você disse que seu voto será conservador e todo mundo sabe que conservadorismo é bandeira da direita.
Tomando um ar entre professoral e irônico, Cid Adão explicou-se:
— O que todo mundo sabe hoje em dia são as lorotas das redes sociais. O que eu quero é conservar os direitos conquistados no Brasil pela luta de várias gerações, inclusive a nossa. Para conservar tudo isso, só votando na esquerda.
— Meu amigo, se você diz que o voto na esquerda hoje é um voto conservador, o que seria então votar em Flávio Bolsonaro?
Cid Adão vagueou o olhar pela copa da árvore por um instante, depois voltou para a conversa e respondeu-me com a fleuma costumeira:
— Votar nos Bolsonaros seria um voto pré-histórico.
Palavras de Cid Adão da Silva.
Ilustração: personagem Dino da Silva Sauro / Redes Sociais / Reprodução.
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