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Em memória de Zé Gotinha

Tubiba Dourado, Em memória de Zé Gotinha

Na semana passada, revi um personagem muito importante na história do Brasil. Ele ainda está vivo, mas encontra-se bastante relegado no imaginário nacional. Refiro-me ao Zé Gotinha.


Quem tem menos de 30 está perdoado por não conhecê-lo. Mas, quem já passou da idade de Cristo – como se anunciava nos bingos dos parques de diversão – não tem desculpa.


Até o final do século passado, era comum ver muitas pessoas com um tipo bem característico de deficiência: uma ou as duas pernas definhadas e pés retorcidos.


Eram os assinalados pela paralisia infantil. Conviviam com muita dificuldade de locomoção. Alguns usavam muletas, outros praticamente se arrastavam pelo chão – cadeira de rodas era artigo raro.


Falava-se, então, de uma fatalidade que acometia crianças muito pequenas. Depois de uma certa idade, vinha o distanciamento da ameaça e um alívio.


Foi quando o Brasil resolveu erradicar a moléstia pesarosa, à mostra por todos os lugares. O caminho seria imunizar a população em grande escala, por meio de vacinação.


A vacina eram três gotinhas pingadas na língua dos bebês. Foi então criado o personagem Zé Gotinha, o grande divulgador daquele imenso benefício, oferecido sem custos e sem dor.


Zé Gotinha virou figurinha fácil. A imagem dele, impressa em cartazes e folhetos educativos, circulava em abundância. Havia também um calendário de mutirões para aplicação da vacina.


Nos postos da Polícia Rodoviária Federal, por exemplo, em campanhas de vacinação, uma pessoa fantasiada de Zé Gotinha colocava-se ao lado dos patrulheiros. Ao avistá-lo, muitas crianças pediam para parar o carro, porque queriam abraçar o simpático personagem.


O Brasil venceu a batalha. Já não lembro mais da última vez que vi uma vítima da paralisia infantil. Pessoas que guardam memórias do século XX testemunharam essa saga.


Hoje, porém, estamos assistindo a uma onda maçante de difamação das vacinas, vinculada a interesses nebulosos, gestada sabe-se lá onde e disseminada pelas redes sociais.


Há reflexões sérias sobre os limites no uso de vacinas e essa é uma discussão legítima e importante. Mas, isso nada tem a ver com o mórbido fanatismo que se espalha on-line.


O comandante Dureza, octogenário, não se cansa de me enviar vídeos medonhos que atribuem efeitos assustadores às vacinas. Fico pensando: será que ele se esqueceu de Zé Gotinha?


Ilustração: Articulistas em rede.

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