Capítulo XVI - Uma coda para as trilhas sonoras

Os dedos já corriam soltos na digitação dos capítulos seguintes até que um som vindo de longe começou a ecoar no oco das lembranças.
Ao colocar o ponto final no Capítulo XV, aquilo era tudo o que ressoava naquele momento: um arco desde 1975 com Gabriela; encerrado em 1979 por Dancin’ Days.
Pois bem, eis aqui a prova viva de que a memória consiste em um movimento de oscilação entre recordações e esquecimentos.
O Capítulo XVI originalmente escrito — Um mosaico para os anos 1970 — foi empurrado para a frente e passou a ser XVII. Porque se tornou imperativo meter os cotovelos e abrir caminho de volta ao tema das trilhas sonoras da TV.
E o que soou de longe e cresceu em volume até preencher o presente foi uma trilha sonora inteiramente composta por Toquinho e Vinicius.
Em que ano aquelas imagens e sons me teriam fascinado tanto? Apenas aos sete anos de idade, em 1973? Ou já beirando a adolescência, em 1977?
A telenovela foi exibida pela primeira vez em 1973. Houve, porém, uma reprise emergencial em 1977, para substituir Despedida de Casado, vetada pela censura de última hora.
Aperto a mente mas não me vem a precisão do ano: jogo a toalha. O que não se deixa esquecer é a sensação do deleite, a excitação renovada a cada noite diante da tela.
Um tio madurão deixava-nos, crianças, tomar o chão da sala para bisbilhotar, ao som das risadas dele, o público e o privado no cotidiano de Sucupira — a maquete social e política das cidades miúdas do Brasil.
Foi a primeira das estrondosas “novelas das 10” exibidas pela Globo nos anos 1970: O Bem-Amado, com sua música encantadora.
A abertura homônima à novela, Paiol de Pólvora, Meu Pai Oxalá, No Colo da Serra… canções que, enquanto pulsar em mim a memória, terão aura de eternidade.
Não importa se vi a novela em 1973 ou ‘77 — talvez a tenha curtido nas duas exibições. A precisão cronológica dos acontecimentos não é um imperativo na arrumação das impressões que ficam no coração e na alma.
Na fumaça da música que me levitou, houve a mãe de todas as trilhas sonoras da TV: as canções de Toquinho e Vinicius para a novela de Dias Gomes.
Apêndice da coda:
Em CD que tenho à mão, lançado com a trilha sonora de O Bem-Amado em 2001, encontrei preciosa informação a alvoroçar o nosso bairrismo: a produção musical da trilha leva a assinatura do sergipano João Mello.
Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.
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