Capítulo XI - Audição à porta fechada

No início da década de 1970 minha família mudou-se de Dores para Aracaju, onde outras sonoridades musicais chegaram aos meus ouvidos.
Também por volta daquela época, o meu irmão mais velho, nascido onze anos antes de mim, começou a estudar medicina na Universidade Federal de Sergipe.
Acredito que aquele novo ambiente estudantil abriu acessos musicais até então desconhecidos e ele, aos poucos, começou a trazer, para ouvi-las em nossa casa, fitas K-7 com o repertório musical de vanguarda.
Lembro especialmente de um dia no qual me chamou para um quarto, encostou a porta e disse que colocaria algumas músicas para tocar, mas advertiu: teria que ser em volume baixo e eu não deveria contar nada a ninguém sobre o que iríamos ouvir, porque eram músicas proibidas.
Daquela escuta duas canções fixaram-se na minha memória e posteriormente pude identificá-las com maior precisão: Presidente Bossa Nova, do LP As Duas Faces de Juca Chaves (1960), e Dona Maria Tereza, gravada no álbum As Músicas Proibidas de Juca Chaves (1962).
Estávamos sob a ditadura militar e, apesar da pouca idade, entendi que a censura ao cantor narigudo e de voz debochada era coisa dos milicos — o estribo da dedução vinha no sussurro que corria as ruas.
Que nada! Só agora, ao encher a tela branca com estas letrinhas, me dei conta de que havia algo de errado. Presidente Bossa Nova e Dona Maria Tereza foram, respectivamente, mordidas de cobra ardilosa na jugular dos presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart.
Ora! Jango fora pintado como inimigo público número um, pelos fardados que tomaram o poder em 1964. Algumas posições abaixo, Nonô JK também logo apareceu na lista de perseguidos pelos quepes. Por que então o regime militar censuraria essas canções?
O meu engano talvez fosse também do meu irmão, mesmo mais velho e já estudante de curso superior. O fato é que as duas músicas que ouvimos juntos e na surdina, naquela tarde grave e inesquecível, sofreram censura sim, porém antes da insurreição dos coturnos.
Proibições, é certo, esparsas se comparadas ao que veio depois. No caso de Presidente Bossa Nova, contou-me o doutoral Google que, num gesto de grandeza, o próprio satirizado, ao saber do veto, o considerou um absurdo e determinou a liberação imediata da canção.
A suposta e cautelosa desobediência civil do meu irmão, certamente, tinha azo na mera menção aos dois ex-presidentes da república. Era um tempo no qual pais e mães temiam quando os filhos se punham a falar sobre política — daí a nossa audição à porta fechada.
Àquela altura, onde dois ou três do povo estivessem reunidos em conversa miúda, um olho secreto estaria de atalaia no meio deles, ávido por denunciá-los.
Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.
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