A feijoada
- Izabel Melo

- 30 de abr.
- 2 min de leitura

Ele tinha em seu quarto tudo o que precisava. Ali era seu mundo, e o mundo se resumia naquele templo virtual onde vivia imerso em um ambiente digital orbitando em redes, não de descanso, mas sociais. A mãe não via com bons olhos esse estilo de vida, inconformada, insistia para o filho sair, se encontrar com amigos, divertir-se, mas o argumento dele era o mesmo, por meio do computador poderia interagir com quem quisesse.
No entanto, existia algo ou alguém que o fazia se ausentar do seu conforto, mesmo a contragosto, uma relação obstinada com a cumplicidade de sua mãe obrigava-o a sair todas as sextas-feiras, era o dia da famosa feijoada da Mariquinhas. Por algum tempo ele procurou resistir, parecia feitiço; só em pensar naquela iguaria, começava a salivar. Algumas vezes chegou a pedir à mãe que lhe trouxesse uma quentinha, no entanto ela nunca o atendeu, com certeza não perderia a chance de usar essa artimanha para tirá-lo de casa.
Certa ocasião ele resolveu ligar para a Mariquinhas na intenção de convencê-la a vender por delivery, passou horas ao celular explicando sobre os benefícios em adotar esse tipo de vendas, pois aumentaria a clientela e, consequentemente, o seu lucro, mas foi perda de tempo; se arrependeu redondamente, depois dela escutar em silêncio toda sua narrativa disse apenas não entender nada de “ingrês” e desligou.
Passou então a acreditar de não mais existir escapatória para degustar tão saboroso alimento senão partindo para o sacrifício em deixar a comodidade do quarto e ainda enfrentar o olhar matreiro de Mariquinhas, como se desconfiasse do seu poder sobre ele.
E assim, todas as vezes, quando chega dia de sexta-feira, mesmo se quisesse esquecer, a mãe se encarrega de lembrá-lo. Do portão ela o chama insistentemente. Como de costume, reluta em ir, porém imagina a comida fumegando no prato, a boca enche d’água, é mesmo feitiçaria, pensa, e sai em direção à rua.
Ilustração: Articulistas em rede.
Izabel Melo nasceu em Maceió/AL e reside atualmente em Aracaju/SE. É autora dos livros Histórias de Minervina, Edição da Autora, 2016; Nove mulheres e suas histórias, Editora ArtNer, 2021 (Com incentivo da Lei Aldir Blanc); A lenda do caju, Editora ArtNer, 2021 (Com incentivo da Lei Aldir Blanc) e Os 5 sentidos da Natureza, Edição da Autora, 2023.
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Você temuma mente muito criativa. Parabéns, Izabel!