Todas as flores
- Izabel Melo

- há 2 dias
- 3 min de leitura

A mulher acordou bem cedo, comeu ligeiro, amamentou a filha, deixou-a aos cuidados da avó e saiu apressada, pois um importante compromisso levava a apartar-se da pequena. O lugar era longe, teria que pegar duas conduções para chegar até lá e precisava retornar o quanto antes para voltar a alimentar a bebê.
Ao chegar, encontrou o cartório ainda fechado; posicionou-se à porta, ela seria a primeira a entrar. Aos poucos uma fila foi se formando e, às oito horas, a porta foi aberta, iniciando-se o atendimento.
— Bom dia! Eu vim registrar minha filha.
Munida de toda documentação foi apresentando um a um a cada pedido da funcionária.
Com os documentos necessários cuidadosamente conferidos, foi indagada qual seria o nome da criança.
Esse foi o diálogo que discorreu:
— Como sua filha irá se chamar?
— Maria das Flores.
— Das Flores? — perguntou surpresa.
— Sim.
— Por que esse nome?
— Amo as flores, tenho um jardim repleto delas.
— Por que não Maria Rosa?
— Gosto das rosas.
— Então?
— Também Margarida, Angélica, Hortênsia…
— A senhora pode escolher dois, ficaria um nome composto.
— Não, prefiro todas elas.
Houve outras sugestões, ainda assim continuou irredutível.
Sem ter mais argumentos e não querendo se responsabilizar por essa decisão, a moça preferiu recomendar que viesse no outro dia falar com a tabeliã.
Retornou frustrada para casa; não imaginou ser tão difícil fazer um registro, muito menos em rejeitar um nome tão bonito.
Igual ao outro dia, ela chega cedo, mas agora seu coração está inquieto. A recusa do nome a deixou perturbada, mas não tinha outro, na verdade não queria outro, sua neném era todas as flores.
A moça que lhe atendeu no dia anterior avisa que a tabeliã a aguarda.
Ela entra na sala, seu coração acelerado. Sentada atrás de uma mesa a mulher a observa. Pelo olhar dela não dá para perceber se o desfecho será favorável.
Convidada a sentar-se, ela obedece em silêncio, mas o que vem em seguida a surpreende.
— Muito bem, a senhora escolheu o nome Maria das Flores para sua filha.
— Sim senhora.
— Fica, então, registrado: o nome será Maria das Flores.
E foi assim tão rápido, sem perguntas, sem sugestões. A tabeliã apertou sua mão desejando-lhe felicidades e tudo ficou resolvido.
Volta para casa radiante, ainda no ônibus dá uma olhada no envelope que tem em suas mãos e que guarda o precioso documento, algo lhe chama atenção, nele está escrito o nome do cartório e logo abaixo por extenso o nome da tabeliã "Doutora Maria Florinda".
Ilustração: Articulistas em rede.
Izabel Melo nasceu em Maceió/AL e reside atualmente em Aracaju/SE. É autora dos livros Histórias de Minervina, Edição da Autora, 2016; Nove mulheres e suas histórias, Editora ArtNer, 2021 (Com incentivo da Lei Aldir Blanc); A lenda do caju, Editora ArtNer, 2021 (Com incentivo da Lei Aldir Blanc) e Os 5 sentidos da Natureza, Edição da Autora, 2023.
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