Uma luta silenciosa que precisa de visibilidade
- Antônio da Cruz

- há 4 dias
- 6 min de leitura
Esta é uma questão de natureza pessoal, mas de interesse público, pois diz respeito à cultura e à forma desrespeitosa como tratam a arte.

Existem em Aracaju duas obras de arte em espaços abertos, explicitamente dedicadas coletivamente aos trabalhadores da base da sociedade, enquanto a regra é apenas erigir monumentos para homenagens individuais aos chamados vultos históricos, personas: intelectuais, heróis de guerra, atletas, políticos e empresários. Eu tive a felicidade de ser o autor destas duas obras com a convicção da importância simbólica delas.
Certamente o monumento “De Fibra e Dignidade”, DFD, uma obra de arte tridimensional, vertical, com figuras representando um casal de trabalhadores da limpeza pública com suas ferramentas de trabalho, tendo o conjunto base mais figuras, 5,5 metros de altura, aproximadamente é a minha obra mais popular. Foi encomendado pela empresa Torres, instalada na confluência das avenidas José Carlos Silva e a P (Av. dos Garis), no DIA, Distrito Industrial de Aracaju e inaugurado em 2012. O movimento intenso de pessoas e veículos na área dá-lhe bastante visibilidade.

A outra obra é “Contra Todas as Forças que nos Oprimem, CTFO”, um painel horizontal, com uma figura humana central representando um homem submerso e tentando respirar, instalada em 2005 na fachada da sede do Sindipetro AL/SE, Rua Siriri, Centro. É mais impactante pela expressividade visual, principalmente pelo fato dela tratar de um trágico acontecimento: o afundamento da Plataforma petrolífera P-36, na Bacia de Campos – RJ, em 2001, onde 11 trabalhadores da brigada de incêndio morreram.
A obra “DFD” recebeu a atenção da então aluna do curso de artes visuais Erineide Amaral, que a estudou e transformou o conteúdo da sua pesquisa no seu TCC – Trabalho de Conclusão de Curso, onde a concepção, o processo de construção e de instalação da obra são todos descritos em detalhes. O TCC se encontra na BICEN, Biblioteca Central da UFS, Universidade Federal de Sergipe.
Já “CTFO” serviu de ponto de partida para a cineasta Graziele Ferreira realizar o filme em curta metragem, com o mesmo título da obra, fazendo-me um recorte biográfico. O filme CTFO foi lançado no dia 21 de maio deste ano, no Museu da Gente Sergipana, com uma sessão especial dia 24 de junho, no Ateliê Inculca. O documentário segue sendo inscrito nos festivais pelo Brasil afora e depois ficará hospedado no Youtube.
Agora vem a grande contradição. “DFD”, uma obra encomendada pela iniciativa privada continua exposta sob a apreciação do público. Turistas fotografam tendo-a como cartão postal para enviar para seus amigos e parentes e guardar as imagens como recordação das suas visitas a Sergipe. O mesmo acontecia com a obra CTFO. Acontecia, pois agora não faz mais sentido.
Depois de 20 anos exposta livremente na fachada da sede do Sindipetro, a diretoria resolveu interferir no projeto expográfico de CTFO. A ideia de liberdade, expressa na sua concepção e como foi instalada, agora não faz o menor sentido. Hoje a obra se encontra presa em uma gaiola. Sim, literalmente. São grades em toda a extensão circundando-a.

Uma placa larga, escura, de material sintético, como se fosse uma tarja de censura usada pelas ditaduras, bloqueia a sua visibilidade. A visão panorâmica que se tinha da peça ao se afastar para vê-la do outro lado da rua foi perdida. Só é possível visualizá-la se aproximando e olhá-la por entre as grades. O aparato censor é ridículo, de mau gosto e estúpido.
Antes do desastre final, a luta para demover a diretoria do propósito do que parecia ser a construção de um telhado de zinco para proteger a obra, feita em aço inoxidável, contra as intempéries, deu-se quando começou a surgir bem em frente, ao meio do painel, um pilar. Sugeri a um dos diretores que faria gratuitamente a limpeza da obra, que ele havia me solicitado, caso fosse tirado o pilar. A resposta foi silêncio a esta provocação e às perguntas seguintes durante muito tempo.
Decorrido alguns meses fiz uma carta aberta à diretoria do Sindipetro, onde narrava desde a motivação para conceber a obra até sua inauguração e solicitava a remoção daquele apetrecho agressivo. Consegui uma reunião, na qual a decisão da diretoria foi a de me devolver, uma vez que ela foi uma doação minha ao sindicato. Sim, o Sindipetro estava devolvendo ao artista autor a obra que já era patrimônio dos trabalhadores petroleiros.

As alegações para não retirar o aparato grotesco se resumiam na segurança. Segundo o argumento de um dos diretores na reunião, as grades os protegiam das ameaças que eles estariam recebendo. Observando in loco, não há abertura no local, onde a obra está instalada, que permita acesso de qualquer ente ao interior do prédio. Aqui para nós, só por delírio a obra poderia ganhar vida, desprender-se, entrar pela parede e sapecar tabefes e pescoções em todos lá dentro, a torto e a direito, por motivos igualmente fantasiosos.
Outros argumentos, fora da reunião, eram mais ferinos e desconectados do contexto. “Um homem nu nada tem a ver com luta de sindicato”. Puro moralismo. Uma vez explicado o propósito da obra, o discurso mudou: “É uma tragédia. Como posso explicar para a esposa de um trabalhador que morreu no acidente? É muito agressivo”.
Ao fim da reunião ficou certo de que o sindicato me entregaria a cópia da ata. Nesse ínterim, elaborei e apresentei um memorando descrevendo como seriam os procedimentos para desinstalar, transportar e instalar a obra noutro local. Àquela altura fiz contatos com pessoas que poderiam ter condições de conseguir um novo local que a merecesse. Ainda que nada tivesse sido concluído, a conversa já era animadora.
Com a decisão da devolução, também elaborei um contrato de doação. Não fiz semelhante em 2005 porque a minha doação fora de boa-fé e jamais pediria a obra de volta. Agora o caldo engrossou. Sendo um contrato da doação de um bem, este precisaria ser precificado. A nova situação também exigia segurança jurídica.
Ao perceber que a obra tinha um valor monetário, a reação da diretoria foi recuar e ficar em silêncio por dois meses. Eu emiti um novo requerimento solicitando novamente a cópia da ata e a resposta aos demais documentos. Cansa ver o mal feito perdurar.
Dia 19 de junho a resposta veio, também após uma conversa, diante da obra, com um dos diretores que não participou da reunião na qual foi deliberada a doação, mas que pelo visto já havia recebido orientações jurídicas e políticas para conversar comigo. Na resposta eles “Reiteram o respeito pela importância artística e histórica da obra, que compõe a memória do Sindicato”.
Dizem também que, após reavaliação, a “Diretoria decidiu pela manutenção definitiva da obra em sua localização original, na fachada da sede sindical, mas que, por questões orçamentárias, estimam a conclusão das intervenções na fachada no prazo máximo de 8 (oito) meses.” Anularam as insustentáveis argumentações, mas ficou um quê de esperteza.
A diretoria assim ganha tempo esperando o resultado da eleição ao final do ano e, caso estas pessoas não continuem na diretoria, ver-se-ão livres para não cumprir o prometido. A minha luta recomeçará do zero. Serão novos embates para vencer preconceito, moralismo e convencer gente insensível a mexer em orçamento para desmontar o monstrengo que avilta a obra.
Como há a possibilidade do pedido de prorrogação e até cair no esquecimento, o que até agora tem sido uma luta silenciosa, resolvi tornar público aquilo que as pessoas constatam ao passar pela frente do Sindipetro: uma obra expressando a luta por liberdade, metida numa gaiola, tendo sua visibilidade censurada e isto continuará por quase mais um ano.

Fotografias: disponibilizadas por Antônio da Cruz.
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A insensibilidade da atual diretoria para com a arte, é estarrecedora. A obra do artista Cruz é de um valor imensurável. Ele homenageia os trabalhadores que foram vitimados no acidente da P-36 que chocou o Brasil inteiro em 2001.
Ela deve ser livre para apreciação dos que passam na frente da sede do Sindipetro, não enjaulada.
As grades não foram colocadas para proteger o patrimônio do Sindipetro e sim para dificultar os protestos constantes dos funcionários do sindicato que desde 2021 vem sofrendo retirada de conquistas históricas, e também contra demissões de dois funcionários com histórico de luta, além de assédios constantes.
Indiscutivelmente, essa diretoria não está nem aí para arte, para defesa dos direitos dos trabalhadores, o que eles…
É notório que a arte é movimento de denuncia e resistência, muito mais que o objeto, a materialidade em si, por tanto sempre será vítima de apagamento histórico pelos canalhas que chegam ao poder em qualquer que seja o nível.
Cruz e suas obras são a representatividade e ponto.
É o caso da Central Única dos Trabalhadores dar apoio incondicional a CRUZ e arrancar essas grades na lei ou na marr@.
Trabalhadores das mais diversas funções, deveriam ser sempre homenageados, como aqueles que constroem o mundo, dão formas as obras de arte arquitetônicas pelo mundo afora. Veja Brasília, patrimônio da humanidade! Rabiscada por Niemeyer, Athos Bulcão, Lúcio Costa e tornada realidade pelas mãos de tantos anônimos trabalhadores , esses pedreiros, carpinteiros, marceneiros, eletricistas, etc, que nos trouxeram aos olhos os rabiscos dos citados artistas.
Pertinente, sempre, homenagear trabalhadores e suas lutas.
É aviltante o comportamento de uma entidade sindical de trabalhadores, tratar um símbolo que representa. Mais ainda por se desprezar a tragédia que inspirou o artista Antonio da Cruz a priduzir essa preciosidade. Infelizmente sao ações que se alinham a esses tempos difíceis que vivmos, cenários de desprezo pela democracia, pela Justiça, pela dignidade humana. O povo sergipano não merece, muito menos o artista e sua belíssima arte.