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Buga, uma explosão de ideias

A guria haveria de ser artista, já estava no sangue, na vontade e nas iniciativas. Desenha desde quando se conhece por gente, diz hoje a moça cujo biótipo guarda tão vívidos os traços dos bravos povos originários que dá vontade de perguntá-la qual a sua etnia.

 

Buga, Articulistas em rede, "Caminhos que me atravessam"
A artista Buga, fotografada na ambiência da exposição "Caminhos que me atravessam"

Foi por iniciativa de uma professora, na década de noventa, que Juliana Vila Nova, natural de Aracaju, pôde participar de um concurso de desenho promovido pelo fabricante do Pitchula, um refrigerante produzido para criança, anunciado como contendo certas vitaminas essenciais para o crescimento. O tema era ecológico.


Ela se classificou em segundo lugar. O primeiro prêmio era uma bicicleta, mas o segundo lhe deu um monte de garrafas cheinhas do referido refrigerante. Para criança, aquilo era um sonho materializado; ou liquefeito? A vitória ficou na sua memória como um grande feito, um prêmio motivador.

     

O hábito de desenhar a levou às ruas para praticar a arte urbana.  É comum nesta modalidade de arte contemporânea, que oscila entre a periferia e as galerias, suas intervenções artísticas no espaço público estarem sempre associadas a uma ideia inquietante, como uma denúncia, um protesto político, onde é comum imagens e textos se complementarem.


Isto acontece principalmente em muros, prédios e onde houver possibilidade de um grafitti – ou grafite, um lambe-lambe, ou um estêncil, mas também uma sugestiva decoração como um belo mural para os festejos juninos, como o feito pela já artista notória, no “Arraiá do Povo”.  Lá está a sua marca, a sua assinatura: Buga. 

 

Ao vê-la recém-nascida, com senso de humor, o seu irmão mais velho dentre os cinco, a apelidou de Bugalu, personagem mascote do programa "Viva a Noite", apresentado por Gugu Liberato no SBT. A família inteira entrou na onda e passou a chamá-la também. Depois, na rua, com o tempo e a urgência do grafite, a própria artista foi abreviando, de tal forma que Bugalu virou Buga, e assim ficou.


A jovem Juliana, Buga, queria mais e entrou na universidade para ampliar seus conhecimentos. Graduou-se com licenciatura em artes visuais, pela UFS, ou seja, fez o curso focado na formação de professores de arte e pesquisadores, com habilidades técnicas, críticas e reflexivas.


Desta forma, ela concluiu o curso com formação pedagógica que engloba estudos teóricos e práticas artísticas como desenho, pintura, gravura, modelagem em argila/cerâmica e história da arte, com o tempero da produção contemporânea e do potencial criativo. Fez pós-graduação em Culturas Populares, também pela UFS.


Performática, mesmo estando a conversar naturalmente, vez por outra, diante do interlocutor, ela age como se incorporasse uma personagem que emite uma voz de falsete. Caso alguém queira saber se é uma forma de chamar atenção para o que ela quer dizer ou para ser engraçada, ela dirá que é o seu jeito de ser. “Depois de tantos anos de rua, acho que a gente vai ficando mais livre pra existir do próprio jeito, inclusive na voz”, filosofa existencialmente Buga.


Respeito, visibilidade, direito de fala e empoderamento são palavras de ordem da mulher deste pedaço de século XXI. Para esta artista determinada, o grafite é um instrumento que dá força a estes propósitos. Seu trabalho frequentemente aborda temas de memória, representatividade, resistência e crítica social.


Em 2020, Buga teve a oportunidade de consolidar o seu reconhecimento nacional. Foi uma das três pessoas contempladas no edital “Arte em Toda Parte” da Fundação Nacional das Artes – FUNARTE. Também no ano de 2023 deu um passo para o exterior. Foi contemplada em um edital de intercâmbio, pela Funcap, Lei Aldir Blanc, Governo Federal, que lhe permitiu fazer residência artística na Bélgica.


Inquieta, a moça enveredou pelo audiovisual.  As oficinas do projeto “Arte em Toda Parte” foram gravadas. Ela produziu em parceria com a “Memorabilia Filmes”, tendo Aquiles Castro na fotografia e Eudaldo Monção Jr. na edição, cinco videoaulas que têm como foco a prática do grafite para iniciantes. Isto resultou num webdocumentário “A mulher no grafite”, que foi disponibilizado gratuitamente no Youtube.


No dia 4 de março de 2026, Buga iniciou a sua primeira exposição individual: "Caminhos que me atravessam", que teve a curadoria de Guga Juice. Está em cartaz na Galeria Florival Santos, no Cultart – Centro de Cultura e Arte da Universidade Federal de Sergipe – UFS, e vai até o dia 31/03/26. Atenção, ela avisa: “Expor na galeria nunca foi sinônimo de abandonar a rua”.


Buga, Articulistas em rede, Antônio da Cruz
A artista Juliana Vila Nova, Buga (de azul), e a equipe que montou a exposição "Caminhos que me atravessam", em cartaz na Galeria Florival Santos, Cultart, até o dia 31/03/26: Antônio da Cruz, Guga Juice, Caroline Passos, Bruna Ferreira, Jessica Costa, Isack Souza, Adjania Nunes e Maria da Conceição.

Esta exposição é parte do movimento de ocupação. A galeria a acolhe agora, mas ela continuará sendo a mesma artista/pessoa nos dois lugares. “'Caminhos que me atravessam' não é soma, é resto; o que ficou depois dos cortes, das escolhas, do que passou”, enfatiza Buga. Suas obras são mais para produzir impacto na moleira que contemplação para os olhos.


A artista não pretende optar pela galeria em detrimento da rua, porque são territórios diferentes, os dois lhes interessam. Ela quer seguir onde a arte precisa estar. Sim, afinal podemos afirmar que o traço, o spray e o nome Buga cabem em qualquer muro, tela e instalação.


No ensejo, em uma das instalações de “Caminhos que me atravessam”, a provocadora artista, dispõe suspensos próximo de 150 simulacros de coquetéis molotov para que cada um dos visitantes expresse, escrevendo nos pavios, a explosão de ideias numa única palavra e diga do seu sentimento em relação ao mundo.


Nas suas reflexões Buga avalia que o tempo foi o necessário. Cada obra tem seu tempo, e a exposição também. A sensação é de que seus 14 anos de jornada nas artes visuais couberam num dia, e que ainda cabe mais. Afirma também que, muitos anos depois daquele concurso de desenho, quando criança, olhando para trás, entende que a bicicleta era só um símbolo.


O que importava, de verdade, era o que já estava em seu interior: o traço, a vontade, a teimosia de continuar. Perguntada dos seus projetos futuros e ela responde “– Deixar a exposição respirar, ver o que ela me devolve e seguir criando, na rua, em casa, onde mais for preciso”.


Articulistas em rede, Crônicas do Ateliê, Antônio da Cruz

Fotografias: disponibilizadas por Antônio da Cruz.

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