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O bom-dia do Reinilson e as danações nas nossas memórias

Antônio da Cruz, Articulistas em rede
Obra da série "Movimentos". Autor: Antônio da Cruz

Toda manhã tenho recebido um bom-dia genial do amigo artista ceramista Reinilson, o Rei do barro, com postagens que estimulam a memória e me levam a fazer comentários que podem ser validados, por quem de direito, como registros para a história da arte.


O que me trouxe a esta prosa foi exatamente a imagem de uma obra em alto relevo do artista russo Sergey Karlov, feita em mosaico,  que Reinilson postou nas redes sociais, como de costume, e com ela me desejou bom dia.


Entre 2002 e 2005, figurativamente falando, "sentou praça" como militante artístico-cultural em Aracaju um colombiano de nome Ruiz. Sujeito inquieto, polêmico, contestador contumaz e que, de tão provocador, chegava perto do sincericídio. Ele interrompia as falas dos oradores nas aberturas das exposições.


Arrojado, performático e bem articulado, enfrentava seus interlocutores com discursos de guerrilha verbal. Dos embates, entre os sergipanos, surgiu até um manifesto de desagravo, disparando verbetes em igual ou maior intensidade, mas se ele tomou conhecimento ou lhe fez algum efeito, também não sei.


Em 2003 concebi e executei a série "Movimentos" usando a modelagem em alto relevo, cujo tema seria o conjunto de expressões corporais graciosas das bailarinas. O projeto previa a transfiguração de traços do papel quadriculado para tela metálica, alambrado; a figura central, desenhada a grafite, esfumada no papel, passou para a placa de aço carbono, modelada quase plana, para sugerir os corpos em movimento, como em um mural, ao invés de multifacetada. Traços do papel se transformaram em fios de aço a se movimentarem no espaço como elementos de composição do trabalho.


O Ruiz, sem conhecer o contexto e as minhas motivações para o uso do alto relevo, disse  que a minha falta de conhecimento da tridimensionalidade só me permitia chegar àquilo. Eu deveria estudar para melhorar. Disse-lhe que entendia a sua preocupação e iria pensar no assunto. Não sei qual foi a reação dele quando se deparou com as minhas obras tridimensionais de proporções monumentais em espaços públicos.


Terno, porém, sem perder a acidez, jamais, certo dia o colombiano me convidou para visitar sua casa e ver seus trabalhos. Aceitei, fui e conversamos sobre vários assuntos ligados à cultura local e brasileira. O convívio comigo era dentro dos limites humanos possíveis. Naqueles anos, em Sergipe tínhamos vários artistas de outros estados e nacionalidades com os quais convivíamos em cooperação. O  escultor chileno Willy Valenzuela é um remanescente daquela turma. Dos locais frequentados pela comunidade artística, Ruiz aparecia para inquietação de muitos e sumia, por um bom tempo, para a alegria da maioria.


Em 2005 fui convidado por Carlos Cauê, o publicitário, que era então o secretário de Cultura de São Cristóvão, para coordenar as artes visuais do FASC – Festival de Arte de São Cristóvão. Não inclui Ruiz entre os artistas que participaram da exposição coletiva e nem das oficinas que aconteceram antes, já em função do festival.


No primeiro dia do FASC, ele apareceu agitado e de olhos vermelhos. Falava acelerado e acusava-me de tê-lo preterido e discriminado.  Falei do seu sumiço e dos critérios da curadoria. A certa altura o diálogo se tornou inviável. Terminei lamentando e afirmando que me sentia incompetente para lidar com pessoas com o perfil psicológico tão complexo quanto o dele.


As obras que Ruiz levou, e insistia que as introduzisse na sala expositiva sem ter mais espaço para tal, expôs no chão da praça da matriz e ali ficaram todo o restante do dia. Meses depois eu soube que ele, antes de me encontrar, ao chegar a São Cristóvão, tivera uma treta com os policiais do trânsito por querer furar o bloqueio que separava pedestres dos automóveis, com o seu, e recebendo uns trancos pesados. Os olhos vermelhos eram da ayahuasca que ele fazia uso.


Há quem especule que o episódio com a polícia o tenha feito se sentir ameaçado.  Outra fonte sugere que a movimentação entre cidades, dele e da família, acontecia em função do emprego da esposa. Na Colômbia a imigração forçada interna decorre de muitos conflitos político-ideológicos e das ameaças dos narcotraficantes, algo que talvez ele já estivesse se familiarizado. Só se sabe que ele sumiu de Aracaju sem se despedir e nunca mais deu notícias.


Ruiz saiu à francesa e para muitos não faz falta. É verdade que, de certa forma, um adeus não é lá algo que se faça muita questão. Às vezes é só tristeza. Por outro lado, o simples bom-dia suscita reconhecer a presença do outro com respeito. A resposta é a reciprocidade ao tratamento recebido na medida justa. É um gesto de civilidade universal que fortalece vínculos sociais e, em nosso caso, firmam-se mais ainda os laços artísticos e culturais. Ao amigo Reinilson pleiteio continuar emitindo os seus bons-dias de ricas e provocativas lembranças.


Antônio da Cruz, Articulistas em rede

Ilustração: Fotografia de obra da série "Movimentos", enviada por Antônio da Cruz.

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7 comentários


Convidado:
há 13 horas

Narrativa interessante! Não cheguei a conhecer Ruiz! Figura complexa! Parabéns mestre Cruz pela sua trajetória !

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Antônio da Cruz
há 14 horas

Olá, Guilherme. Sem dúvida, pessoas como Ruiz terminam se tornando marcantes, ainda que tenham provocado tumultos e rejeições pela agressividade, mas elas terminam nos tirando da zona de conforto para a ação.

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Guinho Cajarana
há 14 horas

Esse é um padrão dá arte muito avançado parabéns.

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Antônio da Cruz
há 14 horas
Respondendo a

Gratidão, Guinho

Levo em conta a ideia de que cultura é tradição, arte a gente inventa.

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Reinilson
há 19 horas

Bela narrativa, Cruz!

Linda bailarina em "Movimentos"!

Muito bom saber do lado estimulante do bom-dia.

Gostei de conhecer um pouco do ambiente artístico em Aracaju nos primeiros anos do século, quando estive ausente, morando em Sampa.

Melhor ainda perceber que sua arte não se estanca na poesia do aço, sendo rica em dotes literários.

Grato por sua amizade!

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Antônio da Cruz
há 14 horas
Respondendo a

Sim, meu caro amigo Reinilson, entre meados de noventa e o início do ano dois mil tivemos a felicidade de vivermos uma efervescência cultural intensa. Tínhamos por aqui uma lei de incentivo municipal que estimulou a realização de muitos projetos culturais e as artes visuais bombaram. Quanto à satisfação pela amizade é recíproca. Abraço grande.

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Guilherme Carvalho
há 21 horas

Muito bom!

Fiquei curioso por Ruiz.

Cada ser humano carrega uma história, sua história, carrega um olhar de sentimento pelo mundo.


Somos todos diferentes, dentro da mesma embarcação chamada Planeta Terra....Pachamama.

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