Álvaro Santos, suas memórias para a história da arte
- Antônio da Cruz

- há 19 horas
- 5 min de leitura

Dia 6 de maio foi uma noite muito especial para a história da arte. Tratamos de fatos que estão nas memórias de Aracaju e Sergipe. Memórias constituem a história e esta constrói a nossa identidade.
A Profa. Terezinha Oliva e o Prof. Anderson Nascimento trataram, sob a nossa mediação, de recortes da vida do pintor patrono da Galeria de Arte Álvaro Santos, a nossa querida e importante vitrine para as artes visuais, a GAAS.
Sob a coordenação de Jaci Rosa Cruz, a galeria está vivendo momentos vibrantes, desde o finalzinho da gestão municipal anterior. Este espaço cultural é uma das unidades da Funcaju, responsável parcialmente pela política cultural no Município de Aracaju, uma vez que foi recriada recentemente a Secretaria Municipal de Cultura.
Para a maioria dos jovens artistas destas terras de Serigy a GAAS é onde acontece o rito de passagem, a iniciação ou o ponto de partida para se integrar ao mundo artístico. Nela acontecem anualmente o Salão dos Novos e o Salão de Fotografia, além das exposições temporárias coletivas e individuais.
As Rodas de Conversas como a do dia seis de maio, na própria galeria, fazem parte da programação do ano inteiro de comemoração dos seus 60 anos de existência. A GAAS foi inaugurada três anos após o falecimento de Álvaro Santos, um propriaense que, assim como seu irmão, Florival Santos, também era pintor e ambos conhecidos como "Os irmãos americanos".

Por curiosidade existem três versões para o epíteto dos irmãos. Uma versão diz que por serem descendentes de italiano eram do tipo de brancos que ficavam vermelhos ao se exporem ao sol; outra seria pela simpatia que os dois nutriam pelos Estados Unidos; a terceira é que, o termo “americanos” estaria associado ao time de futebol América, de Propriá. Todas são apenas hipóteses.
Florival foi homenageado pela Universidade Federal que apôs o seu nome na galeria de arte que fica no Centro de Arte da UFS, o Cultart. É impossível falar de um sem mencionar o outro. Florival dizia, com outras palavras, que, dentre os dois, o genial artista era Álvaro.
Álvaro além de artista plástico era um pensador, um intelectual ativo. O círculo de amizades era de intelectuais e artistas, como Jenner Augusto, João Melo e Carnera, estes dois últimos músicos, e, entre outros, os poetas Freire Ribeiro, Mário Cabral e Santo Souza.
Escrevia resenhas, artigos sobre temas sociais e críticas à arte. Editava e ilustrava revistas como a “Alvorada”, o jornal “A Cruzada” e livros, como ilustrou o importante “Roteiro de Aracaju”, de Mário Cabral.
Jovem, Santo Souza se tornou bastante amigo e guardou na sua memória fatos dramáticos e pitorescos da vida de Álvaro. Muitas das narrativas estão contidas no livro “Álvaro Santos, memórias” da jornalista, poetisa e ativista cultural Ilma Fontes, falecida em 3 de abril de 2021, em Aracaju.
Os irmãos foram responsáveis por ilustrar a lápis as cenas trágicas consequências dos ataques dos submarinos alemães aos navios brasileiros na costa de Sergipe, mas hoje não se sabe qual o destino dessas ilustrações.
Entre as suas críticas marcantes estão à insensibilidade da sociedade em relação à arte e à cultura. Ele perdeu oportunidades, entre elas a de participar de um salão nacional no MASP, São Paulo, por falta de apoio financeiro para transportar suas obras.
Santo Souza narrou este fato dizendo ter se sentido triste por não poder auxiliar o amigo e que muita gente lhe oferecia bebida, mas não o ajudava como artista na hora da precisão. A bebida pode ter sido um problema para Álvaro, como fora para outros grandes artistas.
A Aracaju atual ainda é difícil para os artistas. Pode-se imaginar o que foi tentar vender obras de arte na Aracaju provinciana de meados do século passado de encomendas escassas. Entre a sua estreia no Recreio Clube, em 1941 com o irmão, e o seu falecimento, decorreram 25 anos de arte. Pobre viveu Álvaro e assim faleceu.
Apesar disto, suas obras integram importantes acervos como do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, do Museu Histórico de Sergipe, São Cristóvão e inúmeras coleções particulares, além de terem se espalhado pelo Brasil e o exterior.
Ele conseguiu participar do Salão de Pernambucano de Belas Artes em 1950 obtendo o 2º lugar com “Paisagem de Aracaju” e uma Menção Honrosa com “Cena do Porto”. A primeira foi adquirida pela Universidade de Pernambuco para fazer parte do acervo da Pinacoteca da Escola de Belas Artes.
As características do trabalho de Álvaro Santos se identificam com o pós-impressionismo. Em geral, na sua paleta estão muitas cores quentes vibrantes. Uma vez transportadas para as telas com desvelo e ao mesmo tempo com liberdade, plastificam-se como pinceladas soltas, livres do aprisionamento da matização. Mesmo nos retratos de figuras públicas, nas telas de Álvaro lá estão manchas rebeldes do modernismo.
A propósito, tanto Álvaro quanto Florival experimentaram bastante. É possível encontrar em obras como “Egitinho” de Álvaro e nas palafitas de Florival, manchas pictóricas quase abstratas compondo paisagens, que lembram os gestos dos fauvistas, como se eles tivessem usado cor pura e a tinta diretamente do tubo na tela sem passar pela paleta e o pincel.
Ele e Florival receberam do Governo bolsas para estudar na Escola de Belas Artes. Florival não foi e Álvaro ficou pouco tempo, por ter sido convocado para servir ao exército na Bahia. Concluído o serviço militar, voltou para Aracaju.
Tornou-se sócio do Instituto Histórico de Sergipe; criou o Clube de Poesia, a Associação Sergipana de Arte e o Núcleo Sergipano de Belas Artes, um esforço para convencer o governo a criar a Escola de Belas Artes de Sergipe.
Somente em 1992 a Universidade Federal de Sergipe passou a ter um curso de licenciatura em artes visuais, ou seja, não para formar artistas, mas professores, que veio a ser estruturado após a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996.
O jovem também tinha certo pendor pela luta e chegou a se alistar para guerra, mas a família usou do poder de influência de políticos para tirá-lo do navio prestes a zarpar para a Europa. O nosso herói das pinceladas tropicais luminosas ficou a resmungar por muito tempo.
Álvaro foi acometido de câncer na boca, doença estigmatizante até recentemente, e faleceu em 22 de maio de 1963 aos 43 anos, portanto, precocemente, mas deixou um legado memorável e respeitável. Salvaguardemos os seus feitos e a sua memória.
Após a sua morte o movimento cultural tendo à frente o escritor José Augusto Garcez, reivindicou ao então Prefeito Godofredo Diniz homenagem ao artista. Foi construída, aproveitando-se a estrutura do aquário existente no Parque Teófilo Dantas, a galeria que recebeu o nome de Álvaro Santos e foi inaugurada em 26 de setembro de 1966.

Fotografias disponibilizadas por Antônio da Cruz.
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Parabéns pelo excelente e elucidativo texto sobre o mestre Álvaro Santos, para conhecimento dos novos artistas plásticos.
Muito bom. Uma verdadeira aula sobre a história da arte visual em Sergipe.