Uma noite fora do tempo
- Acácia Rios

- há 20 horas
- 3 min de leitura

Algumas noites parecem suspender o tempo. Ontem foi uma delas.
No começo da tarde, eu tinha enviado a Antônio Passos o prefácio de Cartas cariocas escritas por um sergipano, livro que ele vai lançar ainda este ano. À noite, porém, percebi que o encerramento do texto coincidia, de maneira curiosa, com a continuação da própria experiência que lhe deu origem. Refiro-me ao lançamento do documentário Folha da Praia – Um pasquim sob o sol de Aracaju, do jornalista e diretor Alex Nascimento.

Nesse mesmo evento reencontrei Passos, pois ele havia sido colaborador do jornal e era um dos entrevistados do filme. O auditório do Memorial de Sergipe ficou pequeno para os jornalistas, intelectuais, leitores, amigos, colaboradores, personagens da vida cultural e saudosistas do velho jornal e do seu fundador, Amaral Cavalcante.
Pouco a pouco, começaram a surgir pessoas queridas que eu não via há muitos anos. Rostos, vozes, lembranças, histórias interrompidas pelo tempo reapareciam ali, de forma quase simultânea, como se diferentes décadas passassem a coexistir naquela mesma sala.
Talvez tenha sido essa a sensação mais forte da noite: a de que certos vínculos sobrevivem às interrupções da vida. A Folha da Praia, que teve início em 1981, deixou de circular em 2020. De periodicidade semanal, era alternativo, irreverente, inovador, informativo, mas também divertido.
Os anos passaram, a cidade mudou e, ainda assim, alguma coisa permaneceu intacta. Não apenas a memória de uma geração, mas também uma maneira de conviver, conversar, pensar a cultura e exercer a amizade.
Enquanto assistia à exibição, pensei que havia algo de profundamente simbólico naquela coincidência. Eu passara semanas escrevendo sobre cartas, deslocamentos, memória e cartografia afetiva. E, de repente, tudo aquilo deixava de ser apenas tema literário para se materializar diante de mim, nas pessoas, nas conversas, nos reencontros.
Pensei também na minha discreta relação com o jornal. No começo da década de 1990, com a mediação do jornalista Luciano Correia, publiquei nele o meu primeiro artigo. Anos depois, a convite de Amaral, também escrevi para a revista Cumbuca, editada por ele. Apesar de pontuais, essas colaborações me enchem de alegria.
Quatro décadas se plasmavam ali naquela tela e se reconectavam fora dela, graças à iniciativa de Alex Nascimento. Com duração de 74 minutos, o documentário recupera o contexto histórico, político, econômico e cultural que possibilitou o surgimento, a permanência e o desaparecimento da Folha da Praia. O roteiro didático articula histórias, recordações, revelações, pesquisa iconográfica, reflexões e bom humor dos entrevistados, traço inseparável de um jornal tão transgressor.
Os estertores do jornal ocorrem num momento em que ele já não se encaixava como antes na sociedade sergipana, diante das mudanças ideológicas, tecnológicas, culturais e das transformações internas. A morte de Amaral Cavalcante em 2020 encerrou de vez esse ciclo.
Ao final da noite, voltei para casa com a impressão de que certos acontecimentos não terminam quando acabam. Continuam reverberando em nós, como uma carta que permanece aberta sobre a mesa mesmo depois de lida.
Registros fotográficos do antes, durante e depois da estreia do documentário Folha da Praia - Um Pasquim Sob o Sol de Aracaju, ocorrida na noite de 28 de maio de 2026
Ilustração: Articulistas em rede. Fotos: Almir Ferreira.
Acácia Rios nasceu e reside atualmente em Aracaju/SE. É autora dos livros Rolé de quarta-feira, Criação Editora/EditorAju, 2021; Amor alien em Paris, Kindle/Amazon, 2021 e Amor alien em Bruxelas (no prelo). Os dois últimos títulos escritos sob o pseudônimo literário de Hessie Rivers.
Obrigado por ter lido esse texto. Se gostou da leitura, por favor, dê um click no coraçãozinho que está do lado direito, um pouco mais abaixo. Valioso também é receber um comentário seu e isso pode ser feito descendo um pouco mais na rolagem da página e escrevendo no espaço Escreva um comentário. Temos fé no diálogo!






















Acácio resumiu num belo texto, toda sensação que sentimos na noite de estreia do doc da Folha da Praia.
O tempo não para, mas toda a turma que deu alma e corpo ao nosso jornal, mesmo os que já partiram, estavam lá, na força da memória embalada pela saudade.
A Folha da Praia, vai ver enquanto tivermos memória, na vida de Amaral, no trabalho de Alex e em textos como esse de Acácia. Evoé meus amigos, evoé.
Imagino o ambiente e as recordações ali vividas! Parabéns Acácia Rios pelo registro desse encontro !!
Sim, magnífica é uma das poucas palavras que podem definir tão bem tal acontecimento. Um maravilhoso encontro de gerações, de pensar e pensares, vivências tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas em quando o assunto é o precioso e também saudoso Folha da Praia., que tanto contribui para a transformação da sociedade sergipana.. quisera eu, ter tido a oportunidade de me fazer presente nesse momento icônico.