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Um sergipano no comando da delegação da seleção de 1934

19 de jun.
3 min de leitura
Articulistas em rede, Seleção Brasileira de Futebol, Copa de 1934, Lourival Fontes
Seleção Brasileira em 1934: Martin, Roberto Pedrosa, Sylvio Hoffmann, Tinoco, Luiz Luz, Canalli, Patesko, Waldemar de Britto, Leônidas da Silva, Armandinho e Luisinho

Sergipe e a Seleção Brasileira compartilham conexões históricas no mínimo curiosas. Algumas delas: dois sergipanos da mesma cidade, Riachão do Dantas, chefiaram a delegação brasileira em dois momentos distintos; a inauguração da hoje Arena Batistão, em 1969, pela seleção que viria a conquistar o tricampeonato e a posse definitiva da Taça Jules Rimet; e os jogadores Clodoaldo Tavares de Santana, aracajuano, que seria tricampeão do mundo na mais lendária das seleções, e o lagartense Diego Costa que, vendo que seria preterido no escrete brasileiro, optou pela cidadania espanhola para disputar as Copas de 2014 e 2018 pelo país europeu. Neste clima de Copa, resgato o primeiro e mais inusitado desses episódios, ficando os demais para outros artigos.


Retrato de Lourival Fontes - pintura de Cândido Portinari
Retrato de Lourival Fontes - pintura de Cândido Portinari

Quase ninguém sabe, mas coube a um sergipano liderar o Brasil no segundo Mundial da história, em 1934, na Itália. Quatro anos antes, a estreia brasileira no Uruguai havia sido discreta e frustrante: eliminação precoce na fase de grupos com apenas dois jogos. Naquele ano de 1934, os bastidores ferviam com a transição para o futebol profissional. A briga política entre ligas amadoras e profissionais desfalcou a seleção de suas principais estrelas. Nesse cenário caótico, a liderança da delegação que iria à segunda Copa do Mundo, na Itália, caiu no colo de Lourival Fontes, natural de Riachão do Dantas (SE).


Lourival passava longe de ser um homem do esporte. Menino pobre do interior, destacou-se pela inteligência brilhante. Estudou no Atheneu Sergipense na segunda década do século passado; depois, migrou para o Rio de Janeiro, (antes esteve estudando em Salvador) onde se formou em Direito e ganhou o mundo político e diplomático, tendo sido um dos mais notórios auxiliares de Getúlio até o suicídio do presidente em 1954, tornando-se também embaixador no Canadá e no México e encerrando a carreira como Senador por Sergipe.


Jogadores da Seleção Brasileira treinando no convés do navio SS Conte Biancamano
Jogadores da Seleção Brasileira treinando no convés do navio SS Conte Biancamano

Embora os registros não expliquem como um "não-cartola" assumiu o cargo, o convite provava o prestígio do jovem advogado. A viagem rumo à Europa bem que caberia em um roteiro daqueles filmes de época. A delegação embarcou no luxuoso navio italiano SS Conte Biancamano para uma travessia de duas semanas. Sem estrutura, os atletas improvisavam treinos físicos no convés. Para piorar, a fartura da comida a bordo fez o elenco ganhar peso e desembarcar na Itália fora de forma.


O destino ainda guardava uma ironia: na parada do porto de Barcelona, a seleção espanhola — adversária do Brasil na estreia — embarcou no mesmo navio. O Brasil acabou eliminado logo no primeiro jogo do mata-mata, justamente pela equipe que dividiu o convés na reta final da viagem. O ambiente da Itália de Benito Mussolini, inclusive, combinava com as simpatias ideológicas de Lourival Fontes pelo fascismo, mas isso é tema para outro artigo. A campanha durou noventa minutos: derrota por 3 a 1 e retorno imediato. Ainda assim, o jogo revelou Leônidas da Silva, logo apelidado de "Diamante Negro". O inventor da bicicleta viria a ser o maior jogador do país antes da era Pelé, emprestando seu apelido ao famoso chocolate da Lacta.


Se houve ou não influência direta de Lourival, o fato é que Getúlio Vargas percebeu cedo que o futebol era a ferramenta perfeita para unificar um Brasil culturalmente fragmentado, transferindo a paixão das massas dos palanques políticos para as arquibancadas, inaugurando uma prática que viria a ser utilizada por outros governantes. O esporte era um "prato feito" para as pretensões populistas de Getúlio, que tinha no sergipano o seu principal propagandista.


Setenta e três anos depois, um aspecto daquela história se repetiu em inusitada coincidência. É que, em 2007, outro filho de Riachão do Dantas foi convidado a chefiar a delegação brasileira na Europa: José Carivaldo de Souza, então presidente da FSF, liderou a comissão no amistoso da nossa Seleção contra a Argélia, na França. Uma coincidência notável: de um jeito ou de outro, o pequeno município sergipano já colocou dois de seus filhos no comando da pátria de chuteiras.


Fotos: acervos CBF e Projeto Portinari / Reprodução.

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9 comentários


Convidado:
22 de jun.

De Carivaldo eu ja sabia. Mas desconhecia o trabalho de Lourival Fontes como chefe da delegação brasileira em 1934.

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Claudionor Reis
21 de jun.

Aguardando o artigo sobre Lourival Fontes fascista... rsrsrsrs

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Convidado:
23 de jun.
Respondendo a

Saiu com erros de digitação: fascismo , Mussolini, “mea culpa” e não “mês culpa”

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Claudionor Reis
21 de jun.

Excelente artigo, aos poucos se vai descobrindo os passos dos riachãoenses pelas páginas da história desse país.

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Convidado:
20 de jun.

Excelente conhecer da participação de Lourival Fontes e Clodoaldo em copas. Lembro também do Nunes, centroavante, campeão mundial pelo do Flamengo, que foi convocado algumas vezes para a seleção brasileira, e Joãozinho, ponta esquerda do Sergipe, que jogou algumas partidas com a camisa amarela.


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Luiz Eduardo
22 de jun.
Respondendo a

Verdade! Todavia foquei mais em jogadores sergipanos que atuaram em Copas do Mundo. Pretendo inclusive escrever sobre Dequinha que foi do selecionado de 1954. Não era sergipano mas sua trajetória de treinador foi em Sergipe. Aqui viveu e aqui morreu. Ja inclusive um belíssimo samba de Wilson Batista que fala nele (Samba Rubro Negro). Agradeço a lembrança para naquele futuro artigo incluir essas duas passagens!

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Ronaldo
20 de jun.
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