Pobre classe média, pobres pobres (II)
- Ed Ned

- há 8 minutos
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Ser de classe média já foi um ideal. Parecia claro que diminuindo a superconcentração de renda nas contas da elite ricaça e favorecendo os mais pobres, todos ficariam mais perto do meio termo.
A lógica era simples e bonita, quase uma receita de bolo: se a fatia fosse dividida com mais justiça, ninguém precisaria passar fome para alimentar o consumo desenfreado de outros.
Sonhava-se que as escolas dos filhos do pedreiro e do engenheiro tivessem qualidade aproximada. Desse modo, ambos, um dia, poderiam estar no mesmo patamar de dignidade econômica.
Não se tratava de negar e nem de louvar o topo, mas de garantir que o chão fosse firme para todo mundo — a promessa de que a escada social não tivesse degraus quebrados.
A classe média não era vista como um oásis de privilégios, mas como um patamar social no qual seria possível viver com confortos básicos, sem ostentação e nem grandes privações.
Era o retrato do trabalhador ou empreendedor com renda suficiente para pagar as contas, oferecer boa formação aos filhos e ainda dispor de um troco para o cinema, o futebol e a cerveja.
Não era riqueza, era estabilidade: aquele lugar onde o mês não termina antes do salário e onde um imprevisto não vira, automaticamente, uma catástrofe.
A classe média era referencial para a crença de que trabalhar, estudar e cumprir as regras do jogo renderia, ao menos, uma vida sem sobressaltos em demasia.
Um sonho modesto, mas realista, que colocava uma boa dose de esperança na luta diária de milhões. A questão não era destruir o patamar da classe média, mas, expandi-lo.
Agora, a mentalidade prevalecente é outra. A classe média foi transformada em bode expiatório e sobrevive sob o fogo cruzado dos extremos — um deles no comando, e o outro avassalado.
Ilustração: Articulistas em rede com uso de IA.
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