Não é sobre Lula X Bolsonaro. Ou será que é? (Parte 2)
- Tubiba Dourado

- há 2 dias
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“Até onde eu podia perceber, Bituca tampouco entendia a complexidade do que estava se passando no Brasil naqueles dias. Tínhamos visto junto a multidão histérica, mulheres de terço na mão, homens da TFP enfeitados com seus galardões, desfilando seus enormes estandartes vermelhos com dragões dourados – parecia aqueles filmes sobre Hitler!, ocupando a avenida Amazonas desde a Praça Sete até a Praça Raul Soares. A turba rugia palavras de ordem contra os comunistas e contra a ‘baderna’, aplaudindo e apoiando o golpe militar… Eu não podia compreender aquilo – dezenas de milhares de pessoas urrando (contra elas próprias!) e se manifestando a favor de um estado de coisas que só poderia, por todos meios, causar-lhes muito mal…” (p. 25).
“Mas o fato de termos visto aquilo juntos – com igual terror – não queria dizer muita coisa, porque o golpe de Estado tinha causado na juventude primeiro uma frustração muito grande e, imediatamente depois, uma paranoia sem precedentes. Achava Bituca tímido em excesso e não conseguia aferir o que ele pensava de tudo aquilo. Outros jovens da turma achavam a mesma coisa.
– Já conversei com ele. Ele é gago? – comentou Cássio James por detrás dos óculos fundo-de-garrafa. Cássio James tinha dezoito anos, gostava de ler e recitava com perfeito sotaque inglês: To see the world in a grain of sand… etc.
– Caladão demais – concordou Tibi.
– Caladão demais é apelido. Agora se é gago ou não, isso eu não sei – Tasso Gomide abriu um sorriso. – Nunca vi ele falar, meu irmão.
– Não deviam deixar negro morar no Levy. Aliás, eu sou contra aquela espelunca do quarto andar. – Marinho, o italiano, referia-se à pensão de dona Benvinda, onde Bituca morava, e seu preconceito causou um imediato desconforto geral. Não era esse o espírito dos comentários. Aliás, Marinho era também o único que defendia ‘a revolução’ e aplaudia a violência.” (p. 25-26).
Minhas poucas leitoras e leitores, os trechos acima, entre aspas, não são relatos de nenhum jovem líder estudantil ou sindical, sobre situações ocorridas há 3, 4 ou 8 anos...; não é postagem audiovisual de nenhum(a) influenciador(a) de sucesso, nas redes sociais. Não são sequer palavras nascidas neste século!
Os trechos transcritos, entre aspas, são recortes tirados de um livro cujo título diz claramente sobre o que trata: “Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”, escrito por Márcio Borges.
Conforme a ambiência literária, os fatos relatados ocorreram em 1964. O livro de Márcio Borges, por sua vez, teve a primeira edição publicada no ano de 1996.
As transcrições acima foram retiradas da 12ª Edição de “Os sonhos não envelhecem – Histórias do Clube da Esquina”, publicada pela Geração Editorial, em 2025.
Ilustração: Redes Sociais. Reprodução.
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