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Badyally: do Aribé e do mundo

há 6 minutos
3 min de leitura
Articulistas em rede. Ana Badyally. Comigo ninguém pode. Antonio Passos de Souza.

Meu primeiro encontro com Ana Badyally deu-se nos anos 1980. Eu escrevia na Folha da Praia e ela, de súbito, me pareceu merecedora de divulgação.


Era uma garota vibrante, de uma agilidade mental que saltava aos olhos, um trato pessoal pra lá de envolvente e irreverência da cabeça aos pés.


Em "merecedora de divulgação" é preciso dar o sentido real da expressão: a cidade não poderia ficar sem saber daquela "gema bruta" saída do nosso chão.


Levei-a até a redação do Folha, no lendário edifício da SCAS, fiz um bate-papo no calor da hora e na edição seguinte Badyally debutou impressa no jornal da onda.


Ela me disse que o "Badyally" vinha das arábias — acreditei em tudo e redigi a informação. Era evidente que aquela cintilação faiscante tinha algo das mil e uma noites.


Sábado passado, no velório dela, o professor e filmmaker Sérgio Borges me trouxe uma lembrança que só me fez bem. Contou que fui eu quem a apresentei a ele.


Não só a ele, mas, de uma só vez, também ao professor, jornalista e agora produtor de audiovisual Alex Nascimento. Assim eu teria dito na ocasião, disse Borges:


— Vocês precisam conhecer uma garota. Ela é demais. Vou levar vocês até ela! — Reconheci na frase relembrada o DNA do meu entusiasmo.


A apresentação deve ter acontecido no quarto dos fundos, exclusivo dela e com entrada lateral por fora da casa onde Ana morava, ainda em companhia da mãe.


O quarto, na verdade, era um portal para outras dimensões. Lá foram muitos os encontros, alquimias do pensamento, transcendências. Também articulação política e deleite estético.


Após meia dúzia de anos fora de Aracaju, reencontrei Badyally realizando toda a potencialidade evidenciada desde a primeira vista.


Ao lado do maestro Pedrinho Mendonça, ela era agora diva do bloco percussivo Burundanga, rasgando a avenida em pleno Pré-Caju: erva nativa temperando a festa.


Nesse tempo, a nossa mulher "escândalo!" já morava na travessa Pernambuco. Uma tenda entre o cosmos e o caos. Um oráculo a receber toda sorte de mestres e discípulos do cultural contracultural.


Na casa aberta da travessa Pernambuco — entre a nação dos gatos e seu antiquário vivo — Badyally inventou mais um furdunço dos bons: o Santo Antônio underground.


Tudo isso não é pouca coisa e teve mais. Teve toda a criatividade na área de figurinos e adereços cênicos; à mostra no corpo da artista e levada a diversos palcos e telas.


Na cornucópia criativa veio ainda a grife da estilista: comigo ninguém pode. Esta, felizmente, nos lega catálogos onde há o registro, em cores e formas, do universo Bady.


No dia em que ela tomou o Expresso 2222, o peso-pesado Luciano Correia escancarou sem rodeios a indiferença dos "gestores" locais da cultura para com a artista, em seus derradeiros anos. Está tudo lá, em Um réquiem para Badyally.


Como diz a canção, "talvez por ignorança ou mardade das pió" não se deram conta de que a arte de Badyally sempre esteve no Aribé, mas, de algum modo, também no MASP, no MoMA, na Mussuca e em Milão…


Não é intenção destas mal traçadas forçar uma proximidade entre eu e ela, falo mesmo é da agitadora cultural, com o seu indomável impulso revolucionário.


Não fui habitué da cozinha e quintal dela, embora tenha por lá passado como flâneur ocasional. Com o tempo nosso contato tomou um rumo, digamos, mais etéreo — "pero sin perder la ternura jamás".


Na quinta-feira, antecedente ao sábado do último suspiro, ela me ligou e conversamos por meia hora. Disse-me da chikungunha e outras dores, fofocamos sobre amigos, rimos juntos, ficamos de nos ver…


Diante do ataúde — olhando-a em seu estilo intacto — entendi o sentido do telefonema: era mama Bady, na intuição da viagem, antecipando pétalas de carinho e cuidado…


Viva Badyally!


Foto de Ana Badyally: César de Oliveira.

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