A voz silenciada do Padre Júlio Lancellotti e o espírito natalino
- Luiz Eduardo Oliva

- 26 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Certa vez me ocorreu que entre nós e Jesus apenas cerca de 20 a 25 pessoas nos distanciam num elo que liga gerações. Parece absurdo, mas é real. Se considerarmos que cada geração dentro de um século, considerando que as pessoas mais longevas vivem entre 80 e 100 anos, e se formos dividir os dois mil e vinte e cinco anos da era cristã chegaremos a conta aproximada de 25 que passaram o bastão da tradição ao longo dos séculos. Vamos ao raciocínio: se eu conheci meu avô que nasceu no século XIX e foi da guarda do marechal Floriano Peixoto, então entre eu e o Floriano apenas uma pessoa nos separa, meu avô.
E o que isso tem a ver com o natal? Está relacionado ao elo que liga as gerações contemporâneas às gerações passadas. Muitas vezes nos esquecemos que o ser humano é gregário por natureza, de tal maneira que não há uma atividade humana que seja mais necessária que a outra quando se pensa nas necessidades da vida. Ou seja, ninguém está isolado, estamos todos ligados uns aos outros, queiramos ou não.
Esse ano, às vésperas do Natal a sociedade brasileira foi surpreendida com uma atitude do arcebispo de São Paulo Dom Odilo Scherer totalmente contrária ao espírito natalino. Obrigou ao silêncio o Padre Júlio Lancellotti fazendo calar a principal voz em favor dos desvalidos, quebrando por completo aquilo que a Igreja Católica estimula, principalmente no período natalino, o congraçamento entre as pessoas.
Há cerca de quatro anos durante um especial de Natal (no canal GNT programa “Saia Justa”) o Padre Júlio Lancellotti foi perguntado que presente de Natal gostaria de receber naquele ano. No que respondeu:
"Não quero receber nenhum presente, mas quero ver Deus presente!" E explicou: "Deus presente na História, no sorriso de quem está chorando, no afeto de quem está solitário, abandonado, Deus presente nos que estão depressivos, nos que estão nas calçadas caídos, nos que estão nos hospitais, doloridos, nos que estão nos cárceres, nas mulheres feridas, nas crianças que estão sem o seu núcleo familiar. Então o grande presente do natal é o amor divino, que é um amor humano. Não existe amor divino sem o amor humano porque tão humano assim como é Jesus só sendo Deus mesmo. E que nós lutemos contra toda a forma de opressão e de injustiça, de discriminação, de preconceito porque isso todos nós podemos fazer: desconstruir a homofobia, a lgbtfobia, desconstruir o racismo, o machismo, desconstruir a aporofobia (aversão à pobreza) sempre de coração aberto."
Há uma passagem do evangelho das mais significativas para ideia da misericórdia e do congraçamento: o versículo Mateus 25:45 que está contido na parábola do Juízo Final. Ensina que negar ajuda aos mais necessitados (pobres, famintos, doentes, presos, estrangeiros) é o mesmo que negar ajuda ao próprio Jesus, e o versículo seguinte (25:46) aponta para a vida eterna para os justos e castigo eterno para os que falharam em servir a esses "pequeninos": Diz Jesus: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: todas as vezes que vocês deixaram de ajudar uma destas pessoas mais humildes (os pequeninos), foi a mim que deixaram de ajudar".
Nenhum ser humano no Brasil, absolutamente, tem a vida totalmente dedicada a ajudar os mais humildes que o Padre Júlio Lancellotti. Nem seus opositores poderão negar. O que fez o cardeal de São Paulo proibir que suas missas sejam transmitidas pela internet e impedir que ele se manifeste pelas redes sociais "só Deus sabe" e a consciência do próprio cardeal, por assim dizer.
Talvez esteja aí a razão porque o arcebispo de São Paulo – ele mesmo um conservador (não o faria se vivo estivesse o Papa Francisco) – decidiu calar a voz de Padre Júlio. Uma voz contundente e corajosa contra o conservadorismo hipócrita que assistimos. Calou a voz que clama pelos pequeninos. Breve, em abril, o cardeal Odilo estará se aposentando. Se não rever sua posição até lá, que Deus ilumine o papa Leão XIV na indicação de um novo arcebispo que repare a injustiça e devolva a voz que clama pelos humildes. Feliz Natal.
Foto: Victor Angelo Caldini / Reproduzida de UFJF Notícias (https://www2.ufjf.br/noticias/2023/11/24/ufjf-concede-titulo-de-honoris-causa-a-padre-julio-lancellotti/)
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