O sumiço do malvado: coisas sobre o Planalto Central...
- Antonio Passos de Souza

- 25 de jan. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 30 de jan. de 2025

No ano de 2048 ocorreu a visita de uma autoridade diplomática. Um homem idoso, aposentado do serviço de espionagem. Agora vivendo na sombra e água fresca, amparado em um cargo que lhe proporcionava as melhores viagens.
Após um jantar oficial, numa reservada roda de charutos e cachaças finas, o visitante foi possuído por um incontrolável impulso e passou a contar coisas do passado. Entre os relatos, um me pareceu cabal. Assim narrou o condecorado:
No início do século, quando houve graves distúrbios por aqui, foi destacado um homem para impor a ordem. Assim que chegou, o enviado decretou diversas medidas enérgicas. Como vocês sabem, o povo o apelidou de malvado.
Anos depois, houve uma distensão e, logo em seguida, misteriosamente, o preposto desapareceu. Investigações da polícia local foram de todo inúteis, por isso, acabei designado para desenterrar o caso.
Senti, quase de imediato, o ar inundado por uma infinita conivência para ocultar o destino do malvado. Não havia uma alma na cidade, pude suspeitar, que não soubesse o segredo e que não tivesse jurado guardá-lo.
Certo dia, em um café na 304 Norte, ao voltar do toalete, encontrei sobre a mesa um pequeno pedaço de papel dobrado ao meio, sem que ninguém soubesse informar quem o havia deixado ali. Com discrição, exigi a checagem imediata das câmeras de segurança.
Os ramos de uma planta balançavam ao vento e encobriam a mesa em momentos alternados, como mostraram as imagens gravadas. Entre um balanço e outro da folhagem o papel apareceu sobre a mesa. Nele, estava escrito um endereço.
O sol havia declinado quando cheguei ao local. Era uma casa humilde, igual a todas as outras da vizinhança. Da calçada, avistei um longo e estreito corredor e uma luz ao fundo, de onde vinham sons de cantos e palmas ao mesmo tempo.
Avancei e permaneci parado ao pé do umbral que separava o corredor da sala ao fundo, sem levar a sério qualquer possibilidade de encontrar ali o desfecho da minha procura. Pessoas dançavam formando uma roda e outras, encostadas nas paredes, cantavam e batiam palmas.
Ao meu lado, vi acocorada uma velha senhora. Quando a música parou, sendo substituída pelo burburinho de muitas vozes, baixei a vista no mesmo instante em que a mulher ergueu em minha direção o rosto vincado pelo tempo.
Sem esperança e aturdido por um desleixo incomum, balbuciei algo sobre o sumido… A anciã respondeu:
– Um homem da lei… Um governante que se perdeu e o procuram? Isso é coisa antiga demais. Muita gente acreditou que o país estava em desordem e gostou quando ele chegou por aqui. No fim das contas, tivemos que admitir que era simplesmente um malvado.
– Dizem que foi levado para um labirinto de becos apinhados de barracos, com muita gente circulando o tempo todo, de onde era impossível sair sem um guia e autorização. Muitas pessoas estropiadas por ele e também órfãos e viúvas puderam vê-lo.
– Por fim – isso foi o mais difícil – procuraram um juiz para julgá-lo. Escolheram um louco inofensivo que vivia perambulando pela Praça dos Três Poderes, vestindo sempre o mesmo terno surrado, segurando em uma das mãos um lírio branco e distribuindo mesuras.
– Sabe-se que o acusado aceitou com esperança a nomeação do louco para sentenciá-lo. Compreendeu, em vista da perfídia e das crueldades, que só de um lunático poderia esperar uma sentença que lhe revertesse o sumiço. Depois disso, o assunto foi caindo no esquecimento…
Nas últimas palavras da velha senhora a música já havia voltado. Um espesso vapor de ervas encobriu todo o ambiente. O investigador especialmente enviado para desvendar o caso sentiu-se entorpecido e paralisado… Acordou alguns dias depois na confortável suíte do hotel no qual estava hospedado, sem nada mais lembrar a partir do momento em que a velha silenciou e continuou olhando para ele com um leve e enigmático sorriso, até ser levantada do chão por uma nuvem que a dissolveu entre a roda dos que dançavam.
O investigador fez exaustivas buscas nas semanas seguintes, sem jamais reencontrar o pedaço de papel que recebeu no café da 304 Norte, jamais recordar o endereço escrito no papel e jamais lembrar o caminho até a casa na qual ouviu as revelações sobre o sumiço do malvado…
Ao pronunciar as últimas frases do relato, na roda de charutos e cachaças finas, pela segunda vez em toda a vida e do mesmo modo que da primeira, o visitante sentiu-se entorpecido e paralisado… Ao longe, tocava uma antiga canção cuja sonoridade se perdia desviada pelos torvelinhos do vento. Apenas as ondas sonoras condutoras de um pequeno trecho cantado, atravessaram imunes o intrincado atmosférico e chegaram com clareza aos ouvidos de quem ali estava “… coisas sobre o Planalto Central / Também magia e meditação …”
Foto: Redes Sociais / Reprodução.










Comentários